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Diário | Journal

Anatomia de uma capa de burel

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O assunto da capa de burel surgiu na oficina de tecelagem, enquanto o Fernando folheava a capa de amostras dele que contém alguns exemplos de tipologias tradicionais, portuguesas e não só.
É interessante olhar para uma peça destas do ponto de vista técnico que, apesar de ser tantas vezes ignorado, é muitas vezes o que mais condiciona o resultado final. O que fazemos não é sempre fruto do que se quis fazer, mas do que pôde fazer com os meios técnicos que tínhamos para atingir determinado fim, ou, como ouvi dizer no outro dia: o bom design prospera na adversidade.

Na oficina, falamos do burel do ponto de vista técnico da tecelagem, de como o tecido tem de ser uma sarja para que o processo de feltragem durante o apisoamento corra bem e o tecido fique bem fechado. A sarja, por ser uma estrutura com menos ligamentos que o tafetá, deixa os fios mais livres, o que auxilia a feltragem que ocorre durante o apisoamento.
Ao olharmos para a capa, percebemos que a estrutura do tecido não é uma sarja verdadeira, feita com 4 quadros, mas sim uma falsa sarja de 3 quadros. A capa diz-nos que a necessidade de tecer uma sarja é imperativa para se fazer um bom burel, mas também que como teares tradicionais de 4 quadros não abundam, resolveu-se o problema com um de 3.
A fiação também dita o sucesso do apisoamento ou não. Os fios para a teia eram fiados com mais torção, para resistirem às forças de tensão a que uma teia está sujeita, mas os da trama eram fiados com pouca torção, sem dúvida para manter as fibras soltas, o que ajuda na feltragem.

Esta capa chegou-me às mãos graças à Paula e ao Fernando. Eu já andava há alguns anos à procura de uma verdadeira capa de burel, que gostava de ter tanto por razões sentimentais como profissionais.
Esta é uma capa antiga, mas nova. Nunca foi usada. Foi feita há muito tempo para ser vendida.
O fio foi fiado à mão a partir de lã churra preta e o tecido também foi tecido à mão pela pessoa que a vendeu, da zona de Montalegre. Ainda me falta apurar em que pisão foi apisoado o tecido (provavelmente o de Sezelhe, de acordo com a Paula) e quem a talhou. 

Uma das coisas que sempre me fascinou nestas capas, e que nunca tinha conseguido ver com clareza até ter recebido esta, era precisamente o corte. É aparentemente simples e de uma geometria rigorosa, mas qualquer pessoa que experimentou uma capa destas vos dirá que mal a vestem, são automaticamente envolvidos por ela. Cai na perfeição, quer a usemos com capucha, só aos ombros, aberta para trás ou pousada só num ombro.  
A largura dos teares também era uma limitação, claro. Não seria possível tecer peça larga o suficiente para talharmos o corpo numa peça inteira. Então, esta própria geometria do corte, que é tão bonita, também resulta de uma limitação. Vemos as costuras voltadas para dentro, mas do lado exterior estão de tal forma pisadas que são quase invisíveis.

A Maria das Dores, que a fez, diz que se deve guardar num saco de estopa, por causa da traça, que não come a estopa para chegar à lã! É daquelas coisas que se torna óbvio depois de alguém nos dizer...

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The topic of the Burel cape came about during the weaving workshop, while Fernando went through his textile sample book that contains some of the traditional portuguese weaving typologies.
It's interesting to look at a piece, that is so traditional in Portugal, from a technical point of view, which is so often overlooked. What we make isn't always the result of what we intended to make, but of the technical means we had to attain something, or as I heard the other day: good design thrives in adversity.

In the workshop, we talked about burel from a weaver's point of view, of how it needs to be woven as a twill so that the felting that occurs during the waulking process is effective.
But looking at the cape, we can see that this is not a regular twill woven with 4 shafts, but a 3 shaft
twill. This cape tells us that although weaving a twill is imperative, 4 shaft looms were not common around and a 3 shaft loom had to do. Most domestic looms had only 2 shafts.
How the yarn was spun also influenced if the waulking went well or not. The warp threads were spun with more twist, of course, to withstand the tension, but the weft yarn was
low twist so that the loose fibres would felt more easily as well.

I got this cape thanks to Paula and Fernando. A wonderful opportunity, since I had been looking for a real one for years, for both sentimental and professional reasons.
It's an old cape, but new, as it has never been worn. It was made long ago, when there were still waulking mills working, to be sold.
The yarn was spun from black churro wool and it was handwoven by the person who sold it, from Montalegre. I'm still not sure where it was felted and of who sewed it.

One of the things that has always fascinated me but that I never had the opportunity to see closely until I got this one, was how it is cut. It looks simple and very geometric, but anyone that has tried one on will tell you that the minute you put it on, it wraps you up beautifully. 

The width of the looms was a limitation as well. It was not possible to weave fabric wide enough to cut the cape from a single piece. So this beautiful geometry in the cut is also a result of this limitation. We can see the seams on the inside, but on the
outside they were pressed to be invisible.

Maria Martins, the lady that made it, says you should keep it in a thick linen
bag, because moths will not eat it to get to the wool cape. It sounds pretty obvious the minute someone tells you that...