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de volta das lãs portuguesas

Hoje, um dia passado a separar amostras de velos em bruto de todas as raças de ovinos portugueses para uma pequena exposição a acontecer no final de Setembro. Tantas lãs diferentes num país tão pequeno!

P.S.: Obrigada, Catarina e Rita, pela ajuda indispensável!
 


Today, a day spent organizing samples from raw fleeces from all our local sheep breeds, for a small exhibition that will happen in late September. So many different wools for such a small country!

P.S.: Thank you Catarina and Rita for your wonderful help!

[wip] Lãs Portuguesas - um guia prático
Amostras organizadas e embaladas das 15 raças de ovinos autóctones, prontas para serem fotografadas; /  Organized and packed samples of wool from our 15 sheep breeds, ready for the photoshoot;

Amostras organizadas e embaladas das 15 raças de ovinos autóctones, prontas para serem fotografadas; / Organized and packed samples of wool from our 15 sheep breeds, ready for the photoshoot;

Para cada uma das raças organizamos amostras da lã em bruto e lavada (madeixas), fiada, tecida, tricotada, crochetada e ainda feltrada. Estas pertencem à raça Merina Preta, com três lindas das suas variações naturais de cor; /  For each breed we organized samples of their raw wool, but also washed, spun, woven, knitted, crocheted and felted. These belong the Black Merino breed, with three of their natural color variations;

Para cada uma das raças organizamos amostras da lã em bruto e lavada (madeixas), fiada, tecida, tricotada, crochetada e ainda feltrada. Estas pertencem à raça Merina Preta, com três lindas das suas variações naturais de cor; / For each breed we organized samples of their raw wool, but also washed, spun, woven, knitted, crocheted and felted. These belong the Black Merino breed, with three of their natural color variations;

Para algumas raças as amostras multiplicaram-se: a Mondegueira, embora não seja a única, possui um velo com duas camadas, uma exterior e outra interior com fibras de espessura e comprimento muito diferentes que podem ser trabalhadas separadamente; /  For some breeds, the samples got multiplied: the Mondegueira, although not the only one, is a double coated breed with an outercoat and an undercoat with very different fibers;

Para algumas raças as amostras multiplicaram-se: a Mondegueira, embora não seja a única, possui um velo com duas camadas, uma exterior e outra interior com fibras de espessura e comprimento muito diferentes que podem ser trabalhadas separadamente; / For some breeds, the samples got multiplied: the Mondegueira, although not the only one, is a double coated breed with an outercoat and an undercoat with very different fibers;

A maior parte das raças admite animais de outra cor que não branca no seu Livro Genealógico e para essas esforcei-me por reunir também amostras de algumas variações de cor que ocorrem naturalmente. Estas são apenas 6 das que a raça Churra Galega Mirandesa tem para oferecer; /  Most of our breeds standards accept animals with other colo  rs that not white. For those breeds I made an effort to also gather different colour samples. These are only 6 of the different colors that the Churra Galega Mirandesa has to offer;

A maior parte das raças admite animais de outra cor que não branca no seu Livro Genealógico e para essas esforcei-me por reunir também amostras de algumas variações de cor que ocorrem naturalmente. Estas são apenas 6 das que a raça Churra Galega Mirandesa tem para oferecer; / Most of our breeds standards accept animals with other colors that not white. For those breeds I made an effort to also gather different colour samples. These are only 6 of the different colors that the Churra Galega Mirandesa has to offer;

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"When you look back 6 months from today and don't feel embarassed by your naiveté, there's a problem."

     - Ryan Hoover, founder of Product Hunt in Founder Mantras

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Ora aqui está um problema que eu nunca tenho.
Se eu sabia que passar destes sacos de lã em bruto oriundos de todos os cantos deste país para uns micro-envelopes como estes ia dar tanto trabalho? Claro que não. Mas ainda bem que não sabia, senão tinha-me assustado e hoje ainda não teria nada disto feito.
Por isso, mais ingenuidade, menos ingenuidade, o trabalho está lançado.
Consegui reunir velos das 15 raças de ovinos autóctones portugueses, que entretanto se transformaram em 16 (olá Churra Galega Bragançana Preta), graças à ajuda dos secretários técnicos das Associações e contactos meus que me fizeram chegar todo o material ao Porto.
Com a indispensável ajuda da Isabel Cartaxo, da Guida Fonseca e da Diana Regal, produziram-se as amostras de lã que contemplam as madeixas em bruto e lavadas, mas também de fio, tecelagem, tricot, crochet e feltro - sem estas generosas senhoras, nada feito.
Reuni amostras da maior parte das variações de cor que cada uma produz segundo o padrão da raça, e ainda algumas mais que se espera virem a fazer parte da raça - descobrir depois do material todo reunido que afinal alguns dos velos pretos não são contemplados no padrão da raça e que me faltavam outros que afinal são, só veio tornar as coisas mais interessantes...
Reuni variações de lã de ovelhas aparentemente semelhantes, mas que produzem lãs diferentes e ainda por cima com várias camadas - Mondegueira, porque é que és tão complicada?
Reuni censos actualizados que me dizem exactamente como o reduzido tamanho dos efectivos de certas raças as colocam em risco de extinção e também informações que, apesar da diversidade que é característica das nossas raças, não deixam de ser muito úteis quando queremos ter uma ideia do tipo de lã que uma certa raça produz : espessuras e comprimentos médios das fibras de cada uma das raças, peso médio dos velos produzidos, rendimentos em lavado. 
Descobri a quanto tem sido vendida a lã em bruto de cada uma das raças e como esse valor varia de acordo com coisas muito subjectivas - este tópico dá pano para mangas.
E, acima de tudo, neste momento já consigo perceber o contexto em que cada uma se insere, como evoluiu num passado recente e como esse historial a levou à situação em que se encontra agora, seja essa situação de declínio ou expansão. 
Agora só falta terminar. É como correr a maratona. Os quilómetros finais são os mais difíceis.


[wip] Portuguese Wools - a practical guide

"When you look back 6 months from today and don't feel embarassed by your naiveté, there's a problem."

     - Ryan Hoover, founder of Product Hunt in Founder Mantras

Well, There's a problem that I just never have...    
Did I know that transforming bags of raw wool from every corner of our country into teeny-tiny envelopes like these would be so much work? Of course not. And I'm glad I didn’t, otherwise I would have chickened out.
So, more or less naiveté, the work has begun.
In the past months, I managed to collect fleeces from all the 15 breeds of portuguese sheep that, in the meanwhile, have become 16 ( hello, Black Churra Galega Bragançana!), thanks to the help of the technical secretaries of each breed association and some of my contacts that sent all the material to Porto.
With the enormous help from Isabel Cartaxo, Guida Fonseca and Diana Regal, all the samples were produced, including raw and washed locks, but also yarn and woven, knitted, crocheted and felted samples . Without this generous help, nothing of this would have been possible.     
I collected samples from almost all color variations that each breed produces according to the breed standards and some more that are expected to be a part of the standard - finding out after gathering all the material that some of the black fleeces are not included in the breed standards and that I missed some that actually are, just made things way more interesting…
I gathered variations of sheep wool which may seem similar at first, but that have different wools and also multiple layers - oh, Mondegueira, why are you so complicated?
I gathered updated census that show why some breeds are considered to be in risk of extinction and also technical information that, in spite of diversity which is characteristic in our breeds, is extremely useful if we want to have and idea about the kind of wool each one produces: average thickness and length of fiber, average fleece weight and yield.
By now,  I know how much the raw wool from each breed is being sold for and how this value changes according to very subjective things - I could go on forever about this.
And, above all, I finally have a good feel of the context each one is into, how it evolved in the recent past and how this background has led to the situation they are currently in, being that of decay or of expansion.

All I have to do is finish it. It’s like running a marathon. The last miles are always the hardest ones.

 

Ser Merino em Portugal
Imagem: Ancorme, via  Ruralbit ;

Imagem: Ancorme, via Ruralbit;

A confusão merina começou quando começamos a trabalhar sobre a análise comparativa das lãs portuguesas e termos que usávamos e ouvíamos frequentemente se misturaram com outros novos que fomos aprendendo. 
Merino, Merino Alentejano, Merina Branca, Merina Preta, Merina da Beira Baixa, merino extra, merino fino, merino médio e merino forte. O que significa cada um destes termos e qual é a relação entre eles?

Primeiro, interessa saber que a maior parte das ovelhas de tipo merino existentes no mundo não pertencem a uma única raça merino, mas sim a diversas raças locais que derivam do Merino 'original' (que se crê ter tido origem na Península Ibérica, mas há muitas opiniões e estudos com conclusões díspares), e que foram obtidas através de diversos cruzamentos. 
Uma raça é definida por um conjunto de animais com uma aparência, comportamento e certas características que os distinguem de outros animais e, por isso, apesar das ovelhas serem todas de tipo merino, tecnicamente pertencem a raças distintas. Como por exemplo, as Merino Dohne, as Merinolandschaf, as Rambouillet e muitas, muitas outras. Todas merino, mas raças diferentes.

Em Portugal, especificamente, temos três raças diferentes com a designação merina: a Merina Branca, a Merina Preta e a Merina da Beira Baixa.
Segundo o "Raças Autóctones Portuguesas", da DGAV, os ovinos da raça Merina Branca actuais são resultado de um apuramento genético efectuado com a mistura de merinos espanhóis e franceses (para serem maiores e mais rentáveis), efectuada no início do sec.XX por criadores e técnicos. É uma raça autóctone melhorada.
A raça Merina Preta pensa-se que será um descendente mais directo do Merino primitivo, que seria de origem pigmentada. E como não sofreu o melhoramento genético a que os Merinos Brancos foram sujeitos, são animais mais pequenos e rústicos. Só por isso, já têm características diferentes e são consideradas raças diferentes, apesar de, no que diz respeito à produção lanar, a única diferença registada ser a cor e o tamanho dos velos.
A Merina da Beira Baixa pensa-se que seja resultante do cruzamento do Merino Espanhol com uma raça autóctone portuguesa (há diversas teorias relativamente a qual, sendo que a maior parte se inclina para uma de tipo bordaleiro). Esta raça tem um efectivo maioritariamente branco, e é o que está descrito como sendo o padrão, que não admite animais de velo pigmentado, mas existem animais pretos que não podem ser inscritos no Livro Genealógico.
Portanto... a Merina Branca é constituída por animais brancos, mas podem existir alguns, mas muito raros, pretos. A Merina Preta tem um efectivo constituído por animais pretos que não são da mesma raça que as excepções pretas da Merina Branca. E a Merina da Beira Baixa é constituída por animais brancos e alguns, também raros, pretos, mas que nada têm a ver com os merinos brancos e os merinos pretos e que, oficialmente, nem pertencem à raça Merino da Beira Baixa.

Há ainda o termo "Merino Alentejano", que é amplamente usado por cá, mas que não é uma nenhuma raça específica, mas sim uma referência à lã proveniente das Merina Branca e Merina Preta que têm o seu solar em terras alentejanas. 

Confuso? Ainda não acabou.

Acontece que quando o Dr.Mário Morais Coelho criou o sistema de Classificação das Lãs Nacionais a ser usado pela indústria, utilizou o termo "merino" para nomear quatro das classes de lã com a espessura mais fina: as classes merino extra, merino fino, merino médio e merino forte. Mas esta classificação não tem nada que ver com as raças de onde vem a lã, apenas com a espessura das fibras.  
Ou seja, se a lã de uma ovelha Saloia, ou outra qualquer, corresponder ao diâmetro médio das fibras exigido por este Sistema de Classificação, é classificada como classe merino no âmbito da utilização industrial. 

Concluindo, dizer simplesmente "ovelha merino" não se traduz em nada especificamente, já que existem diversas raças de ovelhas de tipo merino, com características distintas. 
E em Portugal, o facto de usarmos o termo 'merino' em duas áreas diferentes (zootecnia vs indústria têxtil), para nos referirmos a duas coisas diferentes (raça vs classificação têxtil), causa confusão muito facilmente.

É isso.


Being Merino in Portugal

The merino confusion began with our work on portuguese wools, when terms we had been using for some time got mixed up with new terms we were learning.
Merino, Merino Alentejano, Merina Branca, Merina Preta, Merina da Beira Baixa, merino extra, merino fino, merino médio e merino forte. What do they mean, and how do they relate to each other?


The first thing that was important to make clear, is that most merino type sheep in the world today don't belong to a single merino breed, but to several local merino breeds that are derived from the "original merino", and that were obtained by being crossbred. So, although they are merino type, technically, they belong to different breeds. Like the Dohne Merino, the Merinolandschaf, the Rambouillet and many, many others. All merino, all different breeds.

Making the rest of the very long post short, in our country, the 'merino' designation is used for two different things, simultaneously, and that's where the confusion is born. 
First, we have three merino related breeds (Merina Branca, Merina Preta and Merina da Beira Baixa), and when we talk about wool from these sheep, we say it is 'merino wool', which is correct. But then, on our National Wools Classification system, the 4 classes that categorize the finer wools are named 'class merino', and the origin of the wool being categorized is indifferent. So, according to this system that was made with the textile industry in mind, any wool that has less that a certain fiber diameter is called 'class merino'. These classes were created only for the textile industry, and they relate with the english and french classifications systems - check the link, and you'll see the equivalences.
I don't believe, though, that a 'class merino' wool is understood, in the industry, as being 'merino' wool. But what I want to explain is that, in Portugal, using the same name, for two different things, causes a lot of confusion!