Mulheres a tosquiar?

"Esse é um curso para mulheres hobbyistas." Foi este o comentário que o nosso curso de tosquia de ovinos mereceu por parte de um representante de uma entidade dedicada à valorização da lã em Portugal, durante uma mesa redonda que decorreu na última edição da Ovibeja.

Por um lado ficamos contentes que o trabalho que estamos a fazer mereça comentários num certame tão importante, por outro lado achamos preocupante que pessoas que estão em posições de tomada de decisão para o setor da lã em Portugal tenham visões tão reduzidas. Dado que o comentador não conhece o perfil das inscritas nem os seus objetivos, rapidamente concluímos que a classificação de "hobbyistas" surge por serem mulheres.

A escassez crescente de tosquiadores qualificados em Portugal é um problema real, que afeta sobretudo os pequenos produtores. A grande maioria dos tosquiadores "profissionais" que trabalham atualmente em Portugal não tem qualquer formação técnica: este é um dos fatores que está a impossibilitar a valorização da lã. Subestimar a importância de ter cursos de formação profissional como o que realizamos em maio passado e o impacto que pessoas de qualquer género podem ter na resolução do problema, é uma falha de discernimento.

Mulheres a tosquiar? Para quê?

Dos 16 formandos do nosso curso de tosquia de ovinos, 13 foram mulheres. Das 131 manifestações de interesse que recebemos, 111 foram de mulheres. No formulário de pré-inscrição quisemos saber sobre os objetivos a que estas pessoas se propunham atingir. Aqui ficam algumas das respostas:

  • "Conseguir tosquiar de forma independente, ajudar/consultar amigos com rebanho na tosquia para eventual venda/processamento da lã"

  • "Conseguir realizar a tosquia de forma independente e/ou ser capaz de identificar e orientar uma boa tosquia."

  • "Pretendia aprender sobre a área para no futuro poder exercer a tosquia em animais que pretendo adquirir. Também seria uma forma de complementar a minha licenciatura em Engenharia Zootécnica (produção animal)."

  • "Poder tosquiar as ovelhas dos meus vizinhos com mais cuidado, atenção ao animal e poder contribuir para a economia local."

  • "Contribuir para a manutenção/sobrevivência da prática da tosquia, passar este conhecimento a outros e poder contribuir para o desenvolvimento da economia rural/local."

  • "Estou interessada nesta habilidade porque as ovelhas precisam ser tosquiadas para se manterem saudáveis. Pensei que talvez hajam pessoas na minha região que não tenham condições financeiras para tosquiar as suas ovelhas e que eu poderia ajudá-las sem nenhum custo."

  • "Aprender a tosquiar para poder fazer esse trabalho nos pequenos rebanhos existentes na aldeia e meio circundante. Com estas pequenas ações, pretendo contribuir para o processo de valorização da lã, desde a manutenção do velo da ovelha, até à tosquia e compra dos velos."

  • "Ganhar autonomia no que se relaciona com a tosquia em particular e com a manutenção de todo rebanho"

  • "Fazer a tosquia do meu rebanho e utilizar a lã."

  • "Aprender o básico da tosquia, e poder tosquiar de forma correta as ovelhas de rebanhos na vizinhança, que pertencem a pessoas com as quais tenho bom contacto para aproveitar a lã, mas que frequentemente tosquiam mal as ovelhas, inviabilizando a posterior utilização da lã."

  • "O meu objetivo é ajudar a minha família no tempo da tosquia e outros pastores da região. Visto haver cada vez menos tosquiadores."

Rapidamente percebemos que a maioria destas mulheres chegou com um objetivo central: ganhar autonomia. Quem já tem ovelhas quer deixar de depender de tosquiadores externos e não ficar sujeita à disponibilidade cada vez mais escassa de profissionais. Quem ainda não tem animais, mas planeia tê-los, vê esta formação como uma competência prévia indispensável.
Depois temos as mulheres que chegam ao curso com a intenção de prestar serviços de tosquia a terceiros: vizinhos, produtores locais, familiares com rebanhos. Algumas mencionam explicitamente a possibilidade de tornar essa atividade numa fonte de rendimento, respondendo à falta de profissionais.

A verdade é que a capacitação técnica de mulheres nesta área, como em muitas outras, tem um efeito multiplicador e um impacto local que raramente é contabilizado e, logo, não é reconhecido.

O Saber Fazer reconhece o potencial do impacto que pessoas de qualquer género podem ter na valorização da lã em Portugal, se devidamente capacitadas.
O curso que criamos foi administrado por uma entidade formadora certificada na área da produção agrícola e foi rigorosamente estruturado para corresponder às necessidades formativas do público-alvo a que se destinava. Foi lecionado por formadores com Certificado de Competências Pedagógicas e incluiu o apoio pós-formação aos formandos, inclusive com a disponibilização de todos os recursos pedagógicos, em formato vídeo e documentos vários, e um fórum de discussão para apoio permanente.
Tudo isto porque a nossa especialidade é a formação e porque acreditamos que a criação de formações técnicas de qualidade é realmente chave para a valorização da lã em Portugal.

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