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plantas tintureiras - as sementes

Um pouco antes da Primavera começar, andei a estudar e a seleccionar as plantas que achava que fazia sentido ter num jardim de tintureiras, reuni as sementes de todas e passei-as à Carlota, que tratou de as germinar e transplantar para o terreno em Serralves.
Como a atenção que pudemos dispensar a este tema este ano foi limitada (não se esqueçam que estamos a produzir lã, linho e seda em simultâneo na Quinta, ufa!), algumas vingaram e outras não. A Ruiva-dos-tintureiros (Rubia tinctorum) foi uma das que nos escapou este ano, mas voltaremos a tentar.

Existem imensas lojas online que disponibilizam sementes de plantas tintureiras, mas é preciso saber exactamente o que se pretende porque, a não ser que sejam lojas especializadas, a maior parte não está assinalada como sendo especificamente tintureira.
A selecção que fiz incluía algumas tintureiras clássicas, algumas silvestres e outras que apesar de serem conhecidas por outras finalidades, também podem ser usadas na tinturaria. Era um conjunto para mostrar que apesar de existirem plantas iconicamente tintureiras, também há muitas à nossa volta, bem conhecidas, que também cumprem este fim.
Fiz questão de escolher variedades adaptadas ao nosso clima, com excepção aberta ao índigo japonês, porque é ÍNDIGO (como se calhar já sabem, adorou a estadia no Porto e quer voltar para o ano).
Para que fique registado, a minha short-list era a seguinte:

Indigo Japonês (Persicaria tinctoria)
Pastel-dos-Tintureiros (Isatis tinctoria)
Ruiva-dos-tintureiros (Rubia tinctorum)
Camomila-dos-Tintureiros (Anthemis tinctoria)
Estrela-do-Egipto (Coreopsis tinctoria)
Lírio-dos-Tintureiros (Reseda luteola)
Açafrão Bastardo (Carthamus tinctorius)
Milefólio (Achillea milefolium)
Hipericão (Hipericum perforatum)
Galião (Galium verum)
Cravo Túnico (Tagetes patula)
Equinácea (Equinacea purpurea)
Agrimónia (Agrimonia eupatoria)
Calêndula (Calendula officinalis)


Para quem procura sementes de plantas tintureiras, um dos locais mais interessantes para dar uma vista de olhos, é a loja online da Associação Couleur Garance. A Couleur Garance tem o maior jardim dedicado às plantas tintureiras, com cerca de 250 espécies, que podem ser visitadas em Lauris. Todos os anos são colhidas as sementes do próprio jardim, não só para voltar a semear, mas também para partilhar. Podem encontrar as sementes à venda na loja online deles. Foi daqui que vieram as nossas de índigo japonês e pastel-dos-tintureiros, entre outras.
A Sementes de Portugal, uma loja online de sementes que conheci há pouco tempo e que se especializa em espécies emblemáticas da flora portuguesa, disponibiliza sementes para algumas das plantas que listei, como o Lírio-dos-tintureiros e o Hipericão, por exemplo.
Outra opção de que gostei foi o Seedaholic, com muita informação sobre as plantas, preços nada exagerados e uma boa selecção de espécies adaptadas a climas europeus.
A Wildcolours é uma loja dedicada à tinturaria, especificamente, e comercializa sementes de algumas das tintureiras mais emblemáticas.

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This spring I started studying dyeing plants, in order to make a selection that I thought was good for a dyer's garden. I gathered seeds for all of them and passed them on to Carlota, who germinated and transplanted them to the garden, later.
Since the time we could spare to this subject this year was very limited (don't forget we're growing wool, silk and flax in situ simultaneously!), some plants did fine and others didn't. Madder was one that didn't make it this year, but we'll get to next time.

There are many, many online shops that sell seeds for dyeing plants, but you need to know exactly what species you're looking for, as most of them won't tag them as specific for dyeing.
The selection I made to start our garden included some classic dyers, some wild ones and some that are more known for other attributes than their color. I wanted to say that although there are plants that are icons in these dyeing matters, most of them are used mainly for other purposes.
I made a point of picking varieties that are well adapted to our climate and only made an exception for the japanese indigo because, you know, it's INDIGO (as you may already know, it loved being here!). For the record, here's my shortlist:

- Japanese índigo (Persicaria tinctoria)
- Woad (Isatis tinctoria)
- Madder (Rubia tinctorum)
- Dyer's chamomile (Anthemis tinctoria)
- Dyer's coreopsis (Coreopsis tinctoria)
- Dyer's weld (Reseda luteola)
Safflower (Carthamus tinctorius)
- Yarrow (Achillea milefolium)
- St.John's-wort (Hipericum perforatum)
- Lady's bedstraw (Galium verum)
- French marigold (Tagetes patula)
- Purple coneflower (Equinacea purpurea)
- Agrimony (Agrimonia eupatoria)
- Pot marigold (Calendula officinalis)

If you're looking to start your own garden and need seeds for specific plants, one of the most interesting places to take a look at is Couleur Garance's online shop. Couleur Garance has the biggest garden dedicated to dyeing plants, with about 250 species, which can be visited in Lauris. Every year they gather the seeds from their own plants, not only to resow, but also to share. This is where we got our índigo  and woad seeds, for example.
Sementes de Portugal is an online shop that specializes in emblematic species of the portuguese flora and sell some of the varieties I listed, like Dyer's weld or St.John's wort.
Another shop I liked was Seedaholic. They offer a great selection of plants adapted to the european climate, give out lots of informations about each species and their prices are great.
Wildcolours is another option. They specialize in natural dyeing and sells seeds for the most popular plants, like madder, woad and etc.

cores da natureza

Algumas das cores que produzimos durante a oficina de Tinturaria Natural utilizando casca de cebola, henna, ruiva-dos-tintureiros (Rubia tinctorum), folha de nogueira e o índigo japonês acabado de colher (Persicaria tinctoria), em diversos tipos de lã e seda também.
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Some of the colors dyed during the Natural Dyeing workshop using onion peels, henna, madder, fresh japanese índigo (Persicaria tinctoria) and walnut tree leaves, using different types of portuguese wool and silk as well.

Urzela
Urzela ( Roccella tinctoria) /  Orchella weed (    Roccella tinctoria)

Urzela (Roccella tinctoria) / Orchella weed (Roccella tinctoria)

Esta pequena amostra de Urzela (Rocella tinctoria) foi-me oferecida pela Guida, para eu fazer crescer um pouco o meu mostruário dedicado à tinturaria natural.
Na verdade, não sabia o que era a Urzela até ela me ter explicado que este líquene, que só se encontra em certas rochas de certas ilhas de certas zonas, produz uma rara cor púrpura que nos tempos pré-corantes sintéticos era muito difícil de obter de outra forma. Esta amostra veio dos Açores, da ilha de S.Jorge, um dos poucos sítios onde podemos encontrar Urzela.
Uma raridade, portanto.

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This small Orchella Weed (Rocella tinctoria) sample was given to me by Guida, to grow my natural dyeing related collection.
Actually, I did not Know what Orchella Weed was until she explained to me that this lichen, that is only found in certain rocks from certain islands from certain regions, dyes a rare purple color that in the pre-synthetic dye times was really hard to obtain otherwise. This sample came from the S.Jorge island in the Azores, one of few places where Rocella tinctoria grows.

Tingir com índigo fresco
persicaria tintoria japanese indigo
persicaria tintoria japanese indigo
Imagens: Alice Bernardo e Mafalda Pacheco; / Photos: Alice Bernardo and Mafalda Pacheco;

Imagens: Alice Bernardo e Mafalda Pacheco; / Photos: Alice Bernardo and Mafalda Pacheco;

Na Primavera deste ano, lá na Quinta de Serralves, deu-se início à criação de um jardim de plantas tintureiras. Passei algum tempo a estudar e a seleccionar as que achava que seria interessante cultivar, não só para as podermos ver ao vivo, mas também para usar nas oficinas e em experiências várias. O jardim este ano era mesmo pequeno, o tempo disponível também foi curto, e não nos conseguimos expandir tanto como gostaríamos, mas naquele talhãozinho da horta da quinta já vivem diversos exemplares de índigo japonês (persicaria tinctoria), juntamente com pastel-dos-tintureiros (isatis tinctoria) e mais algumas tintureiras.
A quantidade de índigo que cultivamos é pequena e insuficiente para começar sequer a pensar em extrair pigmento para estudar o processo, portanto já tinha posto de lado a ideia de fazer fosse o que fosse com ele. O objectivo deste ano era apenas colher as sementes para podermos cultivar uma área mais significativa em 2017, já que as sementes de índigo são conhecidas por terem pouca longevidade e assim não ia poder usar as que me sobraram deste ano.
Entretanto, em conversa com a Guida e em preparação da Oficina de Tinturaria Natural que se aproximava, lembrei-me que nas minhas pesquisas já tinha lido sobre tingir com as folhas de índigo frescas, acabadas de colher, e decidimos que não havia nada como experimentar. Afinal, ter acesso a plantas de índigo, ainda para mais cultivadas por nós (ou mais pela Carlota) é raríssimo e não fazer algumas experiências com elas enquanto as tínhamos na terra, seria uma pena.

Acabei por fazer uma pesquisa rápida pelos diversos métodos que encontrei, bastante semelhantes entre si, e optei por seguir especificamente o do Rowland Ricketts, que podem encontrar aqui.

Para se perceber o quão especial foi para nós tingir com índigo pela primeira vez, é preciso saber que, no campo da Tinturaria Natural, a cor azul é provavelmente a mais difícil de obter. Há poucas plantas que nos podem fornecer esta cor e a extracção do pigmento é relativamente complexa e demorada, assim como é complexo o tingimento utilizando o pigmento que já foi complexo de extrair em primeiro lugar. 
Relativamente ainda ao índigo, existem diversas variedades desta planta, mas eu optei por cultivar o japonês (persicaria tinctoria) por achar que talvez se adaptasse melhor ao nosso clima temperado. Dados os poucos cuidados que as plantas receberam e olhando para a forma como cresceram, bem como para o resultado que tivemos das nossas experiências tintureiras, acho que se dão bem por cá!

Voltando ao tingimento com folhas frescas, não só achava que não teríamos muitas folhas com que trabalhar, como achei que não teríamos grandes resultados porque sabia que as folhas já tinham passado da época ideal para colher. Por esta altura já todas as plantas estão a florir.

O método das folhas frescas, para contrastar com o da extracção do pigmento e posterior tingimento, é bastante simples e directo, principalmente para as fibras de origem animal. Para se tingir fibras de origem vegetal é preciso fazer um segundo passo, acrescentando um par de ingredientes para alcanizar e remover o oxigénio da solução, utilizando o resto das folhas deste processo que fizemos para a lã e seda (ver nas instruções do Rowland). 
Este método não produz azuis escuros e fortes, porque estamos a usar muito menos folhas do que aquelas que foram reduzidas para se produzir o pigmento concentrado. Como se vê, não estamos a usar o pigmento puro, mas sim as folhas que contêm algum pigmento: uma planta de índigo contém entre 0.2 e 0.8% de pigmento, só para se ter uma ideia da quantidade de plantas que são necessárias para produzir uma quantidade de pigmento de índigo que se veja (!).

Para as fibras de origem animal, este processo consiste basicamente em colher folhas frescas, picá-las numa liquidificadora com alguma água, coar o líquido para que as folhinhas picadas não sujem as fibras, mergulhar as fibras naquele líquido que coamos, esperar 10mn mexendo constantemente, tirar as fibras do líquido para entrarem em contacto com o ar e enxaguar bem.
Ainda tenho de perceber melhor as reacções que permitem que as folhas frescas tinjam de forma tão eficaz as fibras de origem animal, mas para já sei que ao picarmos as folhas na liquidificadora estamos a decompôr o indican, um percursor incolor do índigo, e esta decomposição produz o indoxyl que ao entrar em contacto com o oxigénio do ar se transforma em índigo de cor azul. Durante o processo de liquidificação é introduzido bastante oxigénio na mistura das folhas picadas, o que faz com que a solução fique imediatamente de cor azulada, como se pode ver nas imagens. Ou seja, ao picarmos as folhas de forma tão intensa, estamos a transformar o indican em indoxyl e a converter este em índigo, em simultâneo.

Os tons de azul produzidos, embora variem muito de acordo com a fibra que estamos a usar, são absolutamente maravilhosos! E podemos sempre fazer várias imersões para criar tons mais escuros.

Agora, claro que o facto de só poder usar folhas frescas para este processo de tingimento é uma limitação severa, porque só poderia usar o índigo quando fosse a época dele. É por isso que se opta por extrair o pigmento, que pode ser guardado indefinidamente para ser usado quando bem entendermos e, claro, comercializado.

Ainda assim, produzir azul de forma tão rápida e fácil, com a planta mesmo ao lado, é qualquer coisa de absolutamente maravilhoso e foi um privilégio poder fazê-lo múltiplas vezes durante este fim-de-semana com quem participou nas oficinas de Tinturaria Natural do Saber Fazer em Serralves.

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This spring, in Serralves farm we started a small dyer's garden, with the purpose of having a few live varieties to show and maybe use in the workshops and experiments. This year the garden was really small, we didn't have much time to dedicate to this part of the project, but we managed to grow a few interesting plants, like japanese indigo, woad and a few others.

The amount of indigo we grew was not enough to do anything, so I was just aiming at collecting the seeds to use next year, as indigo seeds are known for being short-lived. But then I started planning the Natural Dyeing workshop that happened last weekend with Guida, and when talking about the indigo plants with her I remembered having seen several methods for dyeing with fresh indigo leaves, instead of having to start a indigo vat.
And having these plants growing right there, it would be a shame not doing any experiments with it. After all, it was actually the first time we had real indigo plants at hand.

Doing a quick research through several methods, I ended up following Roland Ricketts method, that can be found here.
His fresh leaves dyeing method is actually quite simple. It consists in picking fresh leaves, blending them with very cold water, straining this fluid to a clean container and using it as a dye bath, submerging the protein based fibers for a few minutes before exposing to the air and rinsing.

The shades of blue we got are absolutely beautiful and being able to dye our fibers blue, which is such a difficult color to obtain through natural dyeing, using such a simple method and the plants we grew in Serralves, was amazing!