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Fiar com um fuso português

Já andava para escrever este post há imenso tempo. Nada de complexo, um simples apanhado de diferentes senhoras com que me fui cruzando a fiar com o tipo de fuso mais comum no nosso país, mas mais invulgar lá fora. A ideia é apenas mostrar a técnica, algumas semelhanças e também as diferenças introduzidas pelo estilo pessoal de cada uma.
Há umas semanas a Josefin recebeu um dos fusos do Saber Fazer, o que suscitou uma série de questões pertinentes acerca da técnica de fiação com um fuso deste género e portanto motivou-me a publicar finalmente estes videos.
Primeiro, queria deixar duas notas iniciais sobre a utilização deste fuso:

- por cá, quer se fie linho ou lã, a roca está quase sempre presente para suportar as fibras enquanto fiamos. Não é tão comum encontrar quem fie sem roca, mas existe;

-  o fuso pode estar sempre na mão ou ser utilizado em suspensão, embora neste caso apenas por curtos espaços de tempo. Ser utilizado em suspensão, depende da qualidade do fuso (principalmente de ter uma boa mainça, como os meus), da mestria da fiandeira e do tipo de fio que se está a fiar. Também depende da preferência pessoal, como iremos ver mais abaixo nos vídeos;
Ora aqui vamos nós:



I've been meaning to write this post for a while now. Nothing too complex, just a simple collection of different ladies I have encountered through my learning process and research, spinning with the type of spindle that is more commonly found in Portugal, but unusual in other countries. My idea is just to show you some similarities and differences present in their techniques.
A few weeks ago, Josefin received one of my portuguese spindles and this prompted several pertinent questions about the spinning technique for this specific spindle and this made me finally publish these videos.
First off, I would just like to leave two notes:
- In Portugal, both in wool and flax spinning, the distaff is almost always used to hold the fibres. It is not common to find people spinning without a distaff, but there are some.
- The spindle can either be always held in hand or used in suspension, although for short bursts only. To be possible for it to be used in suspension it depends on the quality of the spindle (mostly on having a very good carved groove on the tip, like mine do), on the mastery of the spinner and the type of yarn you're spinning. It also depends on personal preferences, as we will see in the videos below. The groove on the tip is so important that it even has its own word in portuguese: "mainça".
Let's get started:

Neste video da Adelaide a fiar linho, que captei na Corredoura (Guimarães) em 2013 vemos a técnica mais comum. A mão esquerda puxa as fibras enquanto a direita roda o fuso. Se repararem bem, a mão do fuso abre-se ligeiramente para o deixar girar livremente, quase em suspensão. Isto permite que o fuso gire mais rápido, claro.
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In this video of Adelaide spinning flax that I recorded in Corredoura (Guimarães) back in 2013 we see the most common technique. The left hand drafts the fibers from the distaff, while the right hand spins the spindle. If you look closely, Adelaide's spindle hand slightly opens to let the spindle turn freely, almost suspended. This allows the spindle to turn faster, of course.
 


Outro exemplo de uma técnica mais tradicional é a da Benta. Apesar de estar a fiar lã, a técnica é semelhante à da Adelaide.
A Benta já não se encontra entre nós, mas mantém-se na memória daqueles que se cruzaram com ela. Foi uma das pessoas mais interessantes que alguma vez conheci e de quem respiguei conhecimento muito valioso. Podem ver mais vídeos da Benta aqui: #01, #02, #03, #04, #05#06 e #07.
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Another example of a very traditional technique is Benta's. Although she is spinning wool, the technique is similar to Adelaide's, in the first video.
Unfortunately, Benta is no longer among us, but she keeps being a solid presence in the memory of those that had the privilege to meet her. She was one of the most interesting people I have ever met and from whom I gleaned a lot of precious knowledge. You can see more videos of Benta right here: #01, #02, #03, #04, #05#06 and #07.


Aqui temos a Ilídia, minha querida amiga e professora, com quem tive a sorte de fazer a minha iniciação na Lã e na fiação e que me deixa sempre hipnotizada quando a vejo a trabalhar. Este pequeno vídeo fi-lo em Setembro passado e o que ela está a fazer é a fiar para produzir, coisa rara de se ver por cá nos dias que correm. Com isto quero dizer que ela está, de facto, a fiar para vender e que, portanto, não está a brincar em serviço como se pode ver pelo tamanho da maçaroca, bem como pela destreza e velocidade. Como podem ver, ela fia em suspensão. Sabem porquê? Porque os fusos dela têm uma boa mainça. E têm uma boa mainça porque ela não brinca em serviço. Um fuso mais ou menos bom não serve para a Ilídia.

And here we have Ilídia, my dear friend and teacher, with whom I was SO lucky to be initiated in this wonderful world of wool and spinning. Watching her work always leaves me mesmerized, no matter how many times I've seen it. I recorded this little video last September and in it you can see her production spinning. This means she's spinning yarn to sell and not to pass time, as you can tell by the speed of her spinning and the size of that cop. Her spindle is about 45cm tall and my spindles were inspired in this model.
As you can see, she does spin in suspension. Do you know why? Because her spindles have a perfect groove on the tip. And she makes sure they have a good groove because she does not have time to waste. A good enough spindle does not cut it with Ilídia, and this is something that I have learned with her.

 


Depois temos a minha amiga Tita Costa. A Tita aprendeu a fiar com uma senhora da zona do Douro que era amiga da família dela. O fuso que ela está a usar, que é de uma incrível qualidade com uma exímia mainça feita em latão, pertencia a essa senhora e portanto já tinha trabalhado muito antes de chegar às mãos da Tita.
A técnica que a Tita aprendeu e usa actualmente não inclui roca e o fuso nunca sai da mão porque nunca é utilizado em suspensão. Aquele som que ouvem, é o fio a saltar da mainça enquanto recebe a torção. A Tita costuma dizer que é o fuso a cantar.
Na verdade, o fuso dela permite fiar em suspensão, mas ela não o faz.
Eu tenho vários fusos do mesmo género, todos antigos, mas apenas um tem a mesma qualidade do da Tita e é o que mais uso para fiar. Até hoje não o consegui replicar e os que encontro à venda em feiras ou noutras lojas são mais úteis para decoração do que para fiar. Geralmente os fusos com a ponteira metálica eram mais utilizados para fiar linho, mas podemos perfeitamente fiar outras fibras com ele.
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And then we have my friend Tita Costa. Tita learned to spin from a lady from the Douro region that was a friend of the family. The spindle she's using, which is absolutely amazing, has a brass tip with an exquisitely carved groove. The spindle belonged to the lady that taught her, so it had spun a lot before it got to Tita's hands.
The technique Tita learned and uses does not include a distaff and the spindle never leaves the hand, because it is never used in suspension. That clicking sound you hear is the yarn jumping from the groove as it twists. Tita says that is "the spindle singing".
In reality, her spindle as such a good groove that it allows her to spin in suspension, but she doesn't do it because she wasn't taught that way.
I own several spindles, all antiques, but only one has the same quality as Tita's and that's my favourite spindle to date to work with. I have tried unsuccessfully to replicate with the same quality and the ones that I find for sale are more suitable for reenactments than actual spinning.
Usually, the spindles with the metal tip were used to spin flax, but you can perfectly spin other fibres with it.


Para terminar deixo a Fátima a fiar com um cabo de vassoura adaptado para ser um fuso, porque o que há mais são técnicas diferentes e o que é preciso encontrar é aquela que cumpre a função da forma que sentimos que nos é mais confortável e produtiva.
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Before signing off, I'm going to leave you with Fátima spinning with a... broom stick!
I believe what we really need to know is that there is no wrong and right technique, only the one that does the job and makes us feel comfortable and productive.

Ainda melhores.

O novo lote de fusos portugueses veio ainda melhor que os anteriores. Fiz algumas alterações e em vez de serem torneados em mogno, são agora em bubinga, uma madeira mais densa que lhes dá um acabamento mais acetinado, dado que os fusos não levam qualquer tipo de verniz, e uma linda cor avermelhada.
E como podem ver, agora cada um deles traz a marca cá da casa, gravada a laser, para contrastar com o trabalhinho manual de tornear estas lindas peças e esculpir aquelas mainças.

A quem está nos Estados Unidos e tem interesse em experimentar uma destas ferramentas, tenho o prazer de informar que pode agora também encontrar os fusos portugueses do Saber Fazer na loja Mielke's Fiber Arts!


Portuguese spindles - better than ever!

The new batch of portuguese spindles came out even better than the previous one. I made a few changes, and now they are handturned in bubinga, a denser wood than the previous mahogany, that provides a satiny finishing with a beautiful reddish color. And, as you can see, each one of them now carries a laser-etched Saber Fazer logo, in contrast with all the handlabour that goes into the woodturning and the top screw carving.

For those of you in the US that have been wanting to try out one of our spindles, I'm very glad to inform that Mielke's Fiber Arts shop is now carrying them! Take a look.

com quantas ferramentas se faz uma mainça
fuso português
mainça
fuso português

Quem sabe mesmo fiar, fia com qualquer coisa, até com uma pedra. É por isso que a minha picuinhice com o peso, forma e material dos fusos pode ser completamente subjectiva. Mas o que é certo, é que trabalhar com uma boa ferramenta dá mais prazer e faz com que o trabalho seja mais uma extensão natural do nosso corpo do que um esforço externo.
Para mim, desde que ganhei confiança para evoluir desde a forma como me ensinaram a fiar, para aquela como sinto que quero fiar, que há pormenores que fazem a diferença.
Além do equilíbrio do fuso e do peso que carrego na mão, a mainça é o mais importante para mim. Gosto que seja bem definida, até profunda, e que no topo faça um gancho perfeito. Para quem chega aqui agora,  mainça é o nome que se dá àquele sulco helicoidal que se vê na ponta superior do fuso.
Dos pormenores mais distintivos entre o vulgo "fuso português" e outros fusos muito semelhantes em forma que se vê noutros países, como o fuso russo, é a existência da mainça. Se o fuso russo se usa apenas com apoio, o nosso, quando tem uma mainça bem definida, até em suspensão pode ser usado, consoante a técnica de cada um, o que lhe confere mais versatilidade, a meu ver.

Os primeiros fusos que fizeram para mim, foram feitos pelo Zé Manel, ainda em Bucos. No final, ele esculpia a mainça com uma navalha e já estava. Quando tive de mandar fazer estes fusos cá no Porto, já com dimensões e forma ligeiramente diferente dos primeiros que tive, nenhum veio com uma mainça decente - pareciam uns risquinhos a fazer de conta. Vai daí, achei que se o Zé Manel conseguia fazer, eu também. A navalha não me chegou, mas com uma lima das unhas e uma lima-faca dei conta do serviço e esculpi as mainças todas ao meu gosto.
Desde então, prefiro que os fusos venham do torneiro sem mainça, e esculpo-as eu, uma a uma, como acho que devem ser para o fuso funcionar bem. É que é muito difícil explicar a quem não fia porque é que um pormenor tão pequeno faz tanta diferença, e em vez de perder tempo a explicar, gasto o tempo a fazer mainças.


If you're an experienced enough spinner, you can spin fiber with anything, even a rock. That's why my pickiness with spindles, weight, shape and material can be completely subjective. But one thing is for sure, working with a good tool is more pleasurable and makes the work feel more like an extension of your own body, instead of an external effort.
For me, since I became confident enough about my spinning to evolve from the way I was taught to spin to the way I really want to spin, there are small details that make all the difference.
Alongside with balance and weight, the helical groove on top of the spindle is the more important detail. I like it to be deeply carved and for it to form a perfect hook on top. I believe that this groove is one of the things that differentiates the "portuguese spindle" from other similarly shaped spindles from around the world, like the russian spindle. If the russian spindle has to be used with support, our spindle, when it has a well carved top screw can even be used as a drop spindle, although that depends a lot on individual techniques.

The first spindles I got made for me, were made by Zé Manel, in Bucos. In the end, he would sculpt the screw with a pocket knife and that was it. When I had to have these spindles made here in Porto, with a slightly different size and shape, not one of them came with a decent groove. So I though that if Zé Manel could do it, so could I. The pocket knife wasn't enough, but with the help of a nail file and a knife file, I got the job done.
Since then, I ask for all the spindles to be hand turned, but delivered without the helical groove and then I sculpt them one by one, with the shape I feel they should have for the spindle to spin properly. You see, sometimes it's very difficult to explain to someone that doesn't spin why such a small detail makes such a big difference, so I prefer spending my time making the grooves myself, instead.