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Sementeira do Linho 2016

Depois da dificuldade que foi arranjar a semente de Linho Galego para dar início a esta cultura na Quinta de Serralves em 2015, soube bem multiplicá-la e assegurar o linhal deste ano sem ter de andar a contar sementes.
Mais uma vez, queria ter feito a sementeira muito mais cedo, mas se no ano passado foi a falta de maquinaria que nos atrasou, este ano foi a chuva interminável. Na semana passada, dia 21 de Abril, aproveitamos o sol, fez-se uma segunda mobilização do solo e tratamos do assunto.

À segunda volta, com mais experiência na matéria, algumas coisas fizeram-se melhor: o terreno foi preparado com mais antecedência para prevenir o aparecimento de infestantes, a sementeira foi toda feita a lanço para garantir uma densidade uniforme e ainda conseguimos desencantar um rolo no armazém para compactar o solo, o que veio mesmo a calhar porque acho que triplicamos a área do ano passado.

Portanto, com o que aprendi no ano passado com a Dores, o Eng.António Silva e a nossa experiência, as directrizes básicas para se fazer uma boa sementeira de linho são as seguintes:

- preparar o terreno com antecedência;

- bom timing. Escolher a altura certa para semear é meio caminho andado. Aqui no Litoral Norte pode ser logo no início da Primavera, desde que as primeiras geadas já tenham terminado. No interior será mais tarde;

- fazer a sementeira a lanço, de forma relativamente densa e uniforme, para se garantir um linho que cresça sem ramificar e relativamente fino, para obtermos uma fibra longa e fina.

- Cobrir a semente com cerca de 1cm de terra e compactar com um cilindro, para aconchegar a semente à terra e criar um efeito "sifão" que vai bombear a humidade das camadas inferiores, evitando que se tenha de regar;

Passados uns quatro ou cinco dias, a semente deve começar a germinar.
A literatura e os profissionais dizem ainda que o linho não deve ser cultivado no mesmo terreno 2 anos seguidos - deve ser feita uma rotação de 3 anos. 


Outros posts no Saber Fazer com mais informação útil sobre a cultura do Linho:

- Que variedade de Linho cultivar;
- Que quantidade de semente é necessária e porquê;
- o que é o Linho Galego e porque é que não encontramos esta semente à venda;


2016 Flax sowing


After the trouble we had finding Galego Flax seed to start our crop in Serralves last year, it felt good to have it multiplied and have this year's sowing assured without having to count seeds.
Once again, I wanted to have it done earlier, but the endless rain we had here kept us postponing it. Last week the sun came out and we managed to do it.
The second time around, we benefited from last year's experience and some things were done better: the soil was prepared a little more careful, the seeds were all broadcasted to guarantee a good and even plant density and we even managed to find a cylinder to compact the soil, which was great because I think we tripled the area.
So, based on what I learned last year from Dores, Eng.António Silva and my own experience, here are the basics for a good flax sowing:

- good preparation of the soil;

- good timing! Picking the right time is crucial. In Porto the sowing can be done has soon as March, as long as the frost is gone. In the interior, the season is a little bit later;

- broadcasting the seed in an even an dense distribution, to make sure the flax grows tall and thin;

- covering the seed with about 1 cm of soil and compact the ground to pump the moisture from the lower layers (no watering needed at his stage!);


More useful information about flax growing:
- what type of Flax to sow;
- how much seed you'll need and why;
- what is Galego Flax and why you can't find seeds for sale anywhere;

O Linho - Sementeira
Talhão semeado em linha

Talhão semeado em linha

 Talhão semeado a lanço

 Talhão semeado a lanço

A investigação que andei a fazer até agora fez-me perceber o quão complexa é esta plantinha e como a qualidade do linho que vamos ter depende quase exclusivamente do que for feito precisamente na altura da sementeira, e bom, também de uma série de factores meteorológicos que não podemos controlar.

A época e a densidade da sementeira são os dois factores cruciais.
A questão da densidade vou deixar para mais tarde, porque é mais fácil explicar com imagens das plantas já crescidas.

Quanto à época de sementeira, na região onde nos encontramos (litoral norte), esta pode começar a partir de meados de Março. No interior será porventura um pouco mais tarde.
Importante é esperar até que os frios intensos e as geadas já tenham terminado - se o tempo estiver demasiado frio, a planta não desenvolve.
No entanto, se o tempo estiver demasiado quente, acelera o ciclo vegetativo do linho e este tem um crescimento demasiado rápido, formando plantas mais baixas e ramificadas - algo que também não queremos, já que a ramificação quebra as fibras, e assim ficamos com fibras curtas e de menor qualidade. 
O que procuramos idealmente é uma temperatura amena e equilíbrio de água, para que a filaça cresça a um ritmo constante e isso só acontece no início da Primavera. No interior, a época parece-me ser ainda mais curta, já que o frio demora mais tempo a desvanecer e o calor instala-se de forma mais intensa, mais cedo.

Como já mencionei anteriormente, o nosso Linho foi semeado bem mais tarde do que devia, a 23 de Abril, mas foi o que foi possível.
Semeamos Linho Galego proveniente de Ponte de Lima.

Parte dos talhões foram semeados em linha (espaçadas cerca de 10cm) e a outra a lanço.
No linho, o habitual numa sementeira feita à mão é que seja feita a lanço, mas quisemos experimentar das duas formas porque haviam várias questões a perceber. Por um lado, achamos que a sementeira em linha permitia-nos, na fase inicial de crescimento, distinguir mais claramente o que era o linho e o que era infestante, para podermos limpar o terreno. Por outro lado, como o linho é suposto ter uma distribuição relativamente uniforme no campo ( que remete para a questão da densidade da sementeira), faz todo o sentido semear a lanço e, de facto, é assim que se faz tradicionalmente.
Depois de espalhada a semente, a zona deve ser coberta utilizando uma grade de dentes ou, quando é uma área muito pequena como a que nós semeamos, usa-se simplesmente um ancinho
A semente do linho é pequena e deve ficar enterrada a uma profundidade de cerca de 1 cm.
De seguida, é preciso compactar um pouco o solo, para aconchegar a terra à semente e também para criar um efeito "sifão" - a compactação vai bombear a humidade da camada inferior e não é necessário efectuar qualquer rega nesta fase inicial. Mais uma vez, como a área que semeamos é bastante pequena, não chegamos a recorrer a um rolo para compactar - bastou-nos bater bem a terra.

A semente do BPGV tem uma taxa de germinação de 95%. Mas a acrescentar a estes 5% que naturalmente não vão germinar, o Eng.Silva diz-nos que 20% das sementes com capacidade de germinação irão ainda falhar por outros factores: por exemplo, porque acabam por ficar enterradas demasiado fundo, ou porque ficam demasiado à superfície e são comidas por pássaros.

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[23.04.2015 / Este post refere-se à investigação e actividades desenvolvidas no âmbito do programa Saber Fazer em Serralves ]

Linho Galego: a semente


Por já me terem sido oferecidas sementes de Linho Galego noutra ocasião, ainda que em pequena quantidade, não pensei que conseguir semente em quantidade suficiente para cultivarmos a área planeada fosse tão difícil. Mas até agora, nunca tinha tentado comprar ou arranjar semente desta variedade.

O Linho Galego, como já mencionei aqui, é uma variedade regional de linho com finalidade mista (fibra e linhaça).
Acontece que para uma variedade de sementes ser comercializada legalmente, esta tem que constar no Catálogo Nacional de Variedades (CNV) ou no Catálogo Comum de Variedades (Europeu). E para constar num destes dois catálogos, tem de corresponder aos critérios DHE: Distinção, Homogeneidade e Estabilidade. As variedades regionais, que são importantes precisamente por serem uma fonte de incrível diversidade genética que carrega consiga diversas vantagens, por natureza, falham em responder a estes critérios que procuram homogeneizar as culturas e, assim deixam de poder ser comercializadas e usadas de forma corrente.
Esta página aqui explica tudo isto bastante bem.

No CNV de 2015, consta apenas uma variedade de Linho, mas com vocação para a produção de linhaça e não fibra.  
Dos nossos linhos regionais, nenhum está inscrito num catálogo de variedades, o que quer dizer que, quando queremos cultivar uma variedade local de linho pela primeira vez, não podemos simplesmente comprar semente. A única forma de a obtermos é encontrar alguém que já a cultive anualmente e nos ceda gratuitamente a quantidade de que precisamos. Tarefa que se revela mais complicada quando sabemos que já não há tanta gente assim a cultivar Linho Galego e que os que o fazem não costumam ter excedente de semente em quantidade suficiente para ceder a quem também quer semear uma área considerável.

Para conseguirmos semente, foi preciso fazê-lo através do Banco Português de Germoplasma Vegetal.
O BPGV, o que faz desde 1977, e de forma muito simplificada, é "colher, conservar, avaliar, documentar e valorizar os recursos genéticos garantes do Sistema Nacional para a Conservação dos Recursos Genéticos". É um banco de sementes, e não só, que alberga neste momento 45.000 variedades de 150 espécies, que são não apenas conservadas, mas também multiplicadas no terreno de 8 hectares que é parte das instalações da instituição,  em São Pedro de Merelim (Braga). 
A cedência de sementes por parte do Banco faz-se, naturalmente, sob a condição do receptor se comprometer a conservar e propagar a variedade pedida.

A quantidade que nos foi cedida foi de 500gr, o que é substancialmente menos do que o necessário para semear a área que tinha planeado inicialmente,  mas é o que temos para trabalhar. Esta semente foi colhida originalmente em Ponte de Lima e foi propagada pela última vez nos terrenos do BPGV em 2007, tendo ficado conservada na colecção activa deles desde então.
Para nós, a acrescentar ao objectivo de ter fibra têxtil para trabalhar, acrescenta-se agora o de multiplicar a semente também. 

Para ver: mais imagens do BPGV que eu pude tirar durante a minha visita.


Galego Flax: the seed


I had been offered Galego Flax seed in a previous occasion, although in a small quantity, so I never thought that getting enough seed for the area we had planned to grow would be so difficult.

As I mentioned before, the Galego
Flax we will be growing is a local variety, with a mixed purpose of fiber production and linseed.
The thing is, for any variety to be legally traded, it has to be listed in our National Variety Catalog (Portuguese) or in the Variety Common Catalogue (European). In order for a variety to be listed in one of these catalogues, it has to meet standards of Distinctness, Uniformity and Stability. But most local varieties, that are so important precisely because they are an incredible source of genetic diversity, naturally fail to comply with these standards that seek to homogenize cultures, and in this way, they end up not being able to be sold legally and easily stop being of current use.
The subject is much more complex than this, but I'm just trying to sum it up in a way that it explains the current situation.

In our 2015 National Variety Catalogue, only one type of Flax is listed, but with linseed production purpose, and not fiber.
Of all our local flax varieties, none is listed in these catalogues, and this means that when someone wants to start growing flax for the first time, we can't simply go out and buy the seeds we need. The only way to get it is to get it from someone that is already growing the variety. This is even more difficult when there isn't that many people growing this type of local flax anymore, and when those doing it usually don't have an amount of excess seed big enough to offer someone else who also want to grow a considerable area.

In order to get the seeds, we had to go the Banco Português de Germoplasma Vegetal.
What the BPGV has been doing since 1977 is a work devoted to the conservation and multiplication of about 45000 varieties of 150 different species, assuring that our natural genetic resources aren't lost. They do this not only by preserving seeds in their different storage facilities, but also by propagating them in their farm just outside Braga, in São Pedro de Merelim.
Seeds can be request to the seed bank, but always under the compromise from the receiver of preserving and multiplicating the seed.

The amount we got, of 500gr, is substantially less than what we needed for the area we had planned to sow, but this is what we will have to work with. These seeds were harvested in Ponte de Lima, and were last multiplied in the BPGV own grounds back in 2007, and have been preserved in their active collection since then.
Adding to the goal of obtaining fibre to process, we now need to assure its propagation as well.

To see: more photos of the Banco Português de Germoplasma Vegetal that I was allowed to take during my visit.