Posts in linho em serralves
Terminaram as oficinas da Primavera

Terminou a Primavera e com ela as oficinas que ensinaram a produzir e extrair fibras têxteis: Oficina prática de Tosquia, Oficina de extração de Seda e Oficina prática de processamento e fiação de Linho, que decorreram em Serralves.

Foi bom ver alguns objectivos deste programa começarem a cumprir-se: produziram-se as fibras na própria Quinta, reuniram-se as ferramentas e receberam-se os artesãos certos para que uma pequena fatia deste conhecimento pudesse começar a ser transmitida a quem quer aprender. Com esta combinação as oficinas esgotaram e, tal como eu sabia que aconteceria porque o mesmo se passou comigo, a paixão e o verdadeiro saber-fazer que a D.Teresa e a Dores têm pelo seu trabalho fez com que os participantes ganhassem verdadeira curiosidade nestes ofícios. 
Muita gente ficou de tal forma convencida que quem participou na da Seda quis levar consigo algumas lagartas ou casulos que, entretanto já soube que já fizeram criação, e quem participou na do Linho levou consigo semente de Linho Galego para começar um pequeno Linhal em 2017. A isto chama-se espalhar, literalmente, a semente.

Mas se a Primavera é a época da produção da matéria-prima, então no Outono começa a época da transformação e, por isso, daqui a uns meses haverão mais oficinas e artesãos fora-de-série para ensinar quem quiser vir aprender mais.

(Apesar das oficinas terem corrido muito bem, não consegui parar um minuto para tirar fotografias decentes. Só tenho estas aqui para mostrar um pouco do que foi, o que é uma pena, mas é o que é...)

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The Spring workshops are over

Spring is over and so are the workshops dedicated to teaching how to grow and process textile fibers from the ground: Sheep Shearing, Silk Reeling and Flax growing and processing were taught in Serralves using the fibers grown right on the farm.
It was nice to see some of the goals for the "Saber Fazer em Serralves" program being accomplished: growing the fibers in situ, gathering the right tools and having excellent craftsmen and women to pass along some of their knowledge to people that are genuinely interested. 

And if Spring is the time to grow your fibers, then Autumn will be the time to transform them. So, in a few months time, we'll have more workshops and craftsmen and women to come to Porto and teach their art.

(Although the workshops went really well, I had no time to stop a minute and take decent photos, which is a pity, but that's that....)

As ferramentas que temos
Ripo (ao centro), sedeiros (lado direito, em cima e em baixo), espadelas (canto inferior esquerdo) e espadeladouros (canto superior esquerdo); /  Flax ripple (center), hackles (right side), scutchers (lower left) and scutching boards (upper left);

Ripo (ao centro), sedeiros (lado direito, em cima e em baixo), espadelas (canto inferior esquerdo) e espadeladouros (canto superior esquerdo); / Flax ripple (center), hackles (right side), scutchers (lower left) and scutching boards (upper left);

Engenho do linho do Museu do Linho de Marrancos; /  A typical portuguese water operated flax break in the Falx Museum in Marrancos;

Engenho do linho do Museu do Linho de Marrancos; / A typical portuguese water operated flax break in the Falx Museum in Marrancos;

Uma pequena estriga de linho que assedei no meu novo sedeiro velho; /  a small flax strick that I hackled with my new old hackle;

Uma pequena estriga de linho que assedei no meu novo sedeiro velho; / a small flax strick that I hackled with my new old hackle;

Reunir ferramentas para trabalhar o linho na oficina e demonstração do próximo sábado, na Quinta de Serralves, não estava a ser fácil.
Queria encontrar bons ripos e sedeiros, utilizados originalmente no trabalho real do linho, não por nostalgia, mas porque não é possível encontrar ferramentas novas à venda e reproduzi-las com a mesma qualidade ia resultar num trabalho bem caro, com o trabalho em metal necessário. 
Não sinto qualquer nostalgia por tempos antigos quando olho para estas ferramentas, porque sei que não há nada de romântico em ter de espadelar à mão quilos e quilos de linho, a não ser para quem só conhece o penoso trabalho do linho de lindas fotografias a preto e branco e levantamentos etnográficos que incluem a palavra "tecnologia" de forma enganadora.
Mas, neste momento, sei que é a única forma de fazer o trabalho que temos de fazer e, acima de tudo, a única forma de retomar o caminho das produções de pequena escala que ficou um dia abandonado em prol da produção industrial. Estas ferramentas precisam de ser repensadas para uma pequena escala verdadeiramente produtiva.

Deste conjunto de ferramentas e ainda mais que não cabiam na foto, parte foi emprestada pelo Sr.Abílio que, com a sua colecção impressionante de artefactos relacionados com o linho conseguiu montar o Museu do Linho em Marrancos, outras tantas pelo Fernando Rei, e um exemplar de cada uma consegui comprar para adicionar ao meu espólio pessoal.

Para que a Quinta de Serralves seja totalmente auto-suficiente na produção de linho, falta resolver a questão do engenho do linho, que é utilizado para moer/partir o linho de forma a libertar a fibra que se encontra no interior do caule (segunda foto). Há poucos em funcionamento em Portugal, mas, para nossa sorte, os que ainda funcionam são todos cá no Norte e parte ainda está disponível para o trabalho. 
Sempre que olho para um engenho do linho, penso que esta máquina essencial já havia de ter evoluído para algo mais prático e ágil. Mas logo a seguir lembro-me que, para partir bem um linho como o Galego, curto e delicado, esta máquina, que parece rústica à primeira vista, está bem afinada e funciona na perfeição: parte muito bem os caules, mas não danifica as fibras. Talvez não seja tão simples redesenhá-la para funcionar com a mesma precisão numa versão mais portátil e mecânica, mas continuo a achar que tem de ser feito.

Se chegaram aqui e ainda acham que usar máquinas vem desvirtuar alguma coisa e que bonito é fazer tudo à mão "como antigamente", gostaria de lembrar que quem não tinha acesso a um engenho destes, tinha de partir o linho batendo-lhe com maços. Antes de inventarem o engenho, partir o linho era literalmente uma maçada!


The tools we have

Gathering good tools for next saturday's flax processing workshop was not easy.
I wanted to find good ripples and hackles, that had been used in real flax work, not because I'm nostalgic about other times, but because you can't easily find new ones for sale and making them with the same quality would be expensive, because of the specific metal work necessary.
I am not al all nostalgic about the "old times" when I look at these tools, because I know there's nothing romantic about scutching kilos and kilos of flax by hand, maybe except for someone that only knows the work involved in turning flax to linen from pretty black and white pictures and etnographic documents. But, at this precise moment, they're the only way we're going to get the job done and the only way to pick up where we left small scale manufacturing in favor of the large industry.

From this set of tools and a few others that aren't in the photo, part were borrowed from Mr.Abílio who has a large enough collection of flax tools to have set up his own flax museum in Marrancos, others from Fernando Rei and I managed to acquire a copy of each to add to my personal collection and actually put them to use.

For the Serralves farm to be completely self-sufficient in flax to linen production, the only thing missing is the flax break, that is used to brake the bark of the dried flax plant and release the fiber that is in the interior. In Portugal, the typical breaks are small mills motioned by water (second photo).
Every time I look at this machine I think it should already have evolved to something more practical and agile. But right after, I remember that in order to break correctly our portuguese variety of flax (Galego), which is very short and delicate, this machine is so well designed that it works perfectly, breaking it well enough, but not so much that it damages the fiber inside.
Redesigning it is not that easy, but it needs to be done just the same.

 

devagar e constante

Este ano tivemos um tempo radicalmente diferente do ano passado durante esta época de cultivo do Linho: muita chuva e, principalmente, temperaturas mais baixas mas que têm subido de forma constante. O resultado foi ter um linhal com plantas mais altas do que as de 2015, em que tivemos uma Primavera demasiado quente.
O Linho gosta de temperaturas amenas e que sobem gradualmente, para poder crescer devagar e em altura, o ideal para quem quer produzir fibra. É por isso que as melhores zonas de cultivo para esta fibra em Portugal são na zona litoral norte, do Porto para cima.


Slow and Steady

This year the weather was radically different from last year's during the flax season: lots of rain and lower temperatures that have been raising slow and steady. Because of this, our flax field is already taller than the one from 2015, when we had a Spring with very high temperatures.
Flax enjoys bland temperatures that rise gradually, so that it can grow slow and as high as possible, which is what we need for good fiber. That's why the best areas in Portugal to grow flax are in the northern coast line, from Porto up to the border with Spain.

 

Em crescimento
Rebentos de Linho Galego aproximadamente 1 semana após a sementeira - 30 de Abril 2016; / Our flax sprouting approximately 1 week after sowing 30 of April 2016;

Rebentos de Linho Galego aproximadamente 1 semana após a sementeira - 30 de Abril 2016; / Our flax sprouting approximately 1 week after sowing 30 of April 2016;

Linho galego - 19 Maio 2016; /  Flax field- 19 May 2016; 

Linho galego - 19 Maio 2016; / Flax field- 19 May 2016; 

Linho galego - 19 Maio 2016; /  Flax field- 19 May 2016;

Linho galego - 19 Maio 2016; / Flax field- 19 May 2016;

Enquanto nos preparamos para a tosquia de sábado, o Linho vai crescendo devagarinho.

Se tudo correr bem, aquela área vazia acima do linhal vai ser um pequeno Jardim de Tintureiras. As sementes de 14 plantas diferentes já estão a germinar e espero conseguir montar o jardim em breve. A seleção que fiz fica para ser explicada noutro post, mas é uma mistura de algumas espécies tintureiras clássicas, como o Pastel-dos-Tintureiros ou a Garança, com outras mais conhecidas por outras razões, como a Equinácea ou a Agrimónia.


Growing

As we get ready for next saturday's shearing, our flax keeps growing.
If all goes well, that empty area above the flax will be a small Dyer's Garden. Seeds for 14 different plants have been sowed and I hope to build the garden soon enough. I'll talk about the plant selection in another post, but it is a mix of classical dyeing plants, like Woad or Madder, with others better known for other reasons, like Purple Cone flowers or Agrimony.

Sementeira do Linho 2016

Depois da dificuldade que foi arranjar a semente de Linho Galego para dar início a esta cultura na Quinta de Serralves em 2015, soube bem multiplicá-la e assegurar o linhal deste ano sem ter de andar a contar sementes.
Mais uma vez, queria ter feito a sementeira muito mais cedo, mas se no ano passado foi a falta de maquinaria que nos atrasou, este ano foi a chuva interminável. Na semana passada, dia 21 de Abril, aproveitamos o sol, fez-se uma segunda mobilização do solo e tratamos do assunto.

À segunda volta, com mais experiência na matéria, algumas coisas fizeram-se melhor: o terreno foi preparado com mais antecedência para prevenir o aparecimento de infestantes, a sementeira foi toda feita a lanço para garantir uma densidade uniforme e ainda conseguimos desencantar um rolo no armazém para compactar o solo, o que veio mesmo a calhar porque acho que triplicamos a área do ano passado.

Portanto, com o que aprendi no ano passado com a Dores, o Eng.António Silva e a nossa experiência, as directrizes básicas para se fazer uma boa sementeira de linho são as seguintes:

- preparar o terreno com antecedência;

- bom timing. Escolher a altura certa para semear é meio caminho andado. Aqui no Litoral Norte pode ser logo no início da Primavera, desde que as primeiras geadas já tenham terminado. No interior será mais tarde;

- fazer a sementeira a lanço, de forma relativamente densa e uniforme, para se garantir um linho que cresça sem ramificar e relativamente fino, para obtermos uma fibra longa e fina.

- Cobrir a semente com cerca de 1cm de terra e compactar com um cilindro, para aconchegar a semente à terra e criar um efeito "sifão" que vai bombear a humidade das camadas inferiores, evitando que se tenha de regar;

Passados uns quatro ou cinco dias, a semente deve começar a germinar.
A literatura e os profissionais dizem ainda que o linho não deve ser cultivado no mesmo terreno 2 anos seguidos - deve ser feita uma rotação de 3 anos. 


Outros posts no Saber Fazer com mais informação útil sobre a cultura do Linho:

- Que variedade de Linho cultivar;
- Que quantidade de semente é necessária e porquê;
- o que é o Linho Galego e porque é que não encontramos esta semente à venda;


2016 Flax sowing


After the trouble we had finding Galego Flax seed to start our crop in Serralves last year, it felt good to have it multiplied and have this year's sowing assured without having to count seeds.
Once again, I wanted to have it done earlier, but the endless rain we had here kept us postponing it. Last week the sun came out and we managed to do it.
The second time around, we benefited from last year's experience and some things were done better: the soil was prepared a little more careful, the seeds were all broadcasted to guarantee a good and even plant density and we even managed to find a cylinder to compact the soil, which was great because I think we tripled the area.
So, based on what I learned last year from Dores, Eng.António Silva and my own experience, here are the basics for a good flax sowing:

- good preparation of the soil;

- good timing! Picking the right time is crucial. In Porto the sowing can be done has soon as March, as long as the frost is gone. In the interior, the season is a little bit later;

- broadcasting the seed in an even an dense distribution, to make sure the flax grows tall and thin;

- covering the seed with about 1 cm of soil and compact the ground to pump the moisture from the lower layers (no watering needed at his stage!);


More useful information about flax growing:
- what type of Flax to sow;
- how much seed you'll need and why;
- what is Galego Flax and why you can't find seeds for sale anywhere;

A floração do Linho

Definitivamente a altura mais bonita na cultura do linho: a época de floração. As plantas já atingiram a sua altura máxima e ficam pontuadas pelas típicas flores de cor lilás que surgem apenas da parte da manhã, que vão caindo ao longo do dia.
Já vemos as baganhas bem grandes, ainda a maturar, e o campo está de um verde muito bonito, mas prestes a começar a amarelecer enquanto caminha para a época da colheita.
Desde sementeira até ao aparecimento das primeiras flores passaram quase exactamente 30 dias - na altura achei que que tinha sido pouco tempo, e culpei o tempo quente, mas diz o Flávio Martins que as variedades nacionais raramente estão na terra mais de 45-50 dias, e isso coincide com os timings a que assistimos no cultivo na quinta de Serralves. 

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[26.05.2015 / Este post refere-se à investigação e actividades desenvolvidas no âmbito do programa Saber Fazer em Serralves ]


Flowering Flax

Most definitely, the most beautiful time in flax growing: the flowering. The plants already have their maximum height, and they get the typical purple flowers in the morning, that then fall throughout the day.
We can already see the seed capsules all grown, but still maturing, and the field has this beautiful shade of green but I know it is about to turn more yellow each day, as crop time approaches.
From sowing to flowering, almost exactly 30 days have passed - at the time I thought that was too fast, and I blamed it on the hot weather we were having, but Flávio Martins says that our national flax varieties rarely stay on the ground more that 45-50 days, and that actually makes sense according to the timings we had at Serralves' farm.

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[26.05.2015 / This post refers to the investigation and activities developed during the Saber Fazer em Serralves program]

O Linho em crescimento


Linho Galego - 29.04.2015


Linho Galego - 11.05.2015


Linho Galego - 13.05.2015


Linho Galego - 19.05.2015


Linho Galego - 29.04.2015


Linho Galego - 11.05.2015


Linho Galego - 13.05.2015


Linho Galego - 19.05.2015

Uma semana após a sementeira e parece que não ocorreu nenhuma das catástrofes previstas por mim. Os pássaros não acorreram em massa para comer as sementes, não as enterramos demasiado fundo para elas brotarem, nem matámos as pobrezinhas à sede. Em vez disso esteve foi um calor excessivo para a época e, como é referido em todo o lado, o Linho cresceu visivelmente mais rápido do que devia. Algo que ninguém pode controlar, claro.

No dia em que surgiram os primeiros rebentos em massa, pensei que íamos ficar com um campo aos "tufos" nos talhões que semeamos em linha, mas à medida que foram crescendo, acabaram por se homogeneizar. Ainda assim, e olhando para o campo já crescido, um mês depois, a conclusão é que a sementeira do linho para fins têxteis é para se fazer a lanço e, de preferência, atravessando o campo duas vezes, em ambos os sentidos, cruzando a distribuição da semente para que fique mais uniforme.
Foi a lanço que a distribuição ficou melhor, o que uniformizou a espessura dos caules, e as infestantes tiveram mais dificuldade em brotar no pouco espaço livre que havia. O cultivo do linho para fins têxteis é suposto ser denso, pois é este factor que regula a espessura dos caules e, consequentemente, a espessura da fibra que obtemos. No entanto, se o cultivo estiver demasiado denso, as plantas têm tendência para começar a acamar, o que não é muito bonito. 
Quem já tem décadas de experiência no cultivo da planta, tem a mão treinada para a quantidade de semente a distribuir. No nosso caso, embora o campo esteja perfeitamente bem, consigo ver uns pontos onde o linho acamou um pouco e as linhas por onde comecei a distribuir a semente estão mais raras (pela simples razão de que não estava segura quanto à quantidade de semente a usar, por mais que me tivesse informado, então fui um pouco forreta na distribuição ao início...).

A Carlota foi quem manteve o linho debaixo de olho durante o período de crescimento, que é uma forma de dizer que foi ela a grande responsável por manter o linho vivo e as infestantes controladas, fazendo a monda à mão, já que por uma questão de área cultivada, que era pequena, mas também por princípio, não se usou nenhuma espécie de herbicida.
Além disso, já percebemos que com uma melhor preparação do solo, aliada à sementeira a lanço mais densa, ainda teríamos menos infestantes do que as que surgiram este ano.
Mas estou aqui a ser um bocado perfeccionista, porque o que eu acho mesmo é que, para linicultores de primeira viagem, ficamos com um campo de linho bem bonito!

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[29.04.2015 - 19.05.2015 / Este post refere-se à investigação e actividades desenvolvidas no âmbito do programa Saber Fazer em Serralves ]


The growing Flax

 

A week after sowing and it seems none of the catastrophes I feared occurred. The birds didn’t flood in to eat the seeds, we didn’t bury them too deep for them to sprout, and we didn’t kill them from lack of water. But instead, we did have very hot weather for this season, and just like I saw mentioned everywhere, the flax grew a little faster than it should. Nothing we could stop, obviously.

In the day the first sprouts appeared, I thought we were going to get a patchy looking crop, especially in the parts we line sowed, but as they grew, they ended up evening out.
Even so, and looking at the grown flax one month after, the conclusion is that flax sowing for fiber purposes should be done by broadcasting the seed and, preferably, crossing the field twice in both ways, crossing the distribution so that it becomes even more uniform.
It was in the broadcasted area that the distribution was better, which made the stem thickness more uniform, and the weeds had a lot more trouble growing in the little free space there was. 
A flax crop for fiber purpose is suppose to be dense, because this is what controls the thickness of the plant stems and, by consequence, the thickness of the fiber we will obtain. However, if the crop is too dense, the plants have the tendency to lie down, which does not make up for a very pretty field.
Those who have decades of experience on this have their hand trained to spread the right amount of seed with no hesitation. In our case, although the field is perfectly good, I can spot some places were the flax fell a little bit and the first lines I sowed ended up a little bare (just because I wasn’t very sure about the amount of seed to use, although I did gather the right information, so I was a little scrimpy at first…)

Carlota kept an eye on the crop, which is a way of saying she was actually the main responsible for keeping them alive and not letting the weeds take over. The weeding was done by hand not just because the crop was small, but also for a matter of principles - chemical herbicides are not welcome in Serralves’s farm.
By now we know that if we had the field ready a couple of months before, and if the sowing had been done more evenly, we would have had less trouble with weeding that we had this year.
But I’m being a perfectionist here, because I really do think that, for first time flax farmers, we ended up with a very nice crop!

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[29.04.2015 - 19.05.2015 / This post refers to the investigation and activities developed during the Saber Fazer em Serralves program]

De quanta semente é que precisamos e porquê?
Densidade da sementeira conforme aconselhada pela Maria das Dores. /  Flax sowing density as advised by Maria das Dores.


Densidade da sementeira conforme aconselhada pela Maria das Dores. / Flax sowing density as advised by Maria das Dores.

Comparação de 2 caules: um localizado no meio do talhão (o mais fino), onde a distribuição é mais densa, e outro de uma planta cuja semente "caiu" fora do talhão e cresceu sem outras plantas à volta. /  Comparing two stems: one from a plant located in the middle of the field (the thinner one), where the distribution is denser, and another from a seed who fell outside the field.

Comparação de 2 caules: um localizado no meio do talhão (o mais fino), onde a distribuição é mais densa, e outro de uma planta cuja semente "caiu" fora do talhão e cresceu sem outras plantas à volta. / Comparing two stems: one from a plant located in the middle of the field (the thinner one), where the distribution is denser, and another from a seed who fell outside the field.

Acho que a pergunta para a qual mais me esforcei para encontrar uma resposta clara junto das pessoas que consultei e do material que li foi relativamente à quantidade exacta de semente que iria necessitar para determinada área.
No início, antes de estudar o assunto mais a fundo, não percebi a disparidade nas respostas. Só quando comecei a ler sobre a influência da densidade de sementeira no desenvolvimento das plantas do linho e, consequentemente, na qualidade da fibra que produzem é que percebi a questão.

Se a sementeira for realizada com pouca densidade, a planta irá ramificar mais e produzir caules mais grossos, o que é óptimo se quisermos produzir semente, mas resultará em fibra mais espessa e uma elevada percentagem de estopa. Para obter uma fibra fina e delicada, é preciso realizar uma sementeira densa, que force as plantas a crescer na vertical, sem ramificar e mantendo os caules finos.
Na segunda imagem acima, eu comparo o caule de uma das plantas que estão no meio do talhão, numa zona muito densa, com outro caule de uma que tendo calhado fora do talhão, tinha menos plantas à volta. Como se pode ver claramente, a segunda é duas ou três vezes mais espessa que a primeira.

O Eng.Silva remeteu-me para os estudos e livros escritos pelo Eng.Flávio Martins, e que aconselha o seguinte num dos seus livros:

"A sementeira faz-se empregando desde 160 até 200 e mais quilos por hectare." e noutro livro seu diz ainda "Uma boa densidade de plantas contém por metro quadrado cerca de 2000." 
Claro que dentro destas indicações há uma certa relatividade, pois já percebemos que varia ligeiramente de acordo com a finura do linho que queremos produzir, e isso até pode ser uma opção.

Assim, para semear linho para finalidade têxtil, podemos gastar aproximadamente de 16 a 20gr de semente por metro quadrado, sendo que há quem aconselhe até cerca de 25gr/m2.

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[Este post refere-se à investigação e actividades desenvolvidas no âmbito do programa Saber Fazer em Serralves ]

Os conselhos do Eng. Flávio Martins para o cultivo do linho
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"Este livrinho tem por fim dar aos agricultores da nossa nação os conhecimentos científicos necessários para que realizem conscientemente a cultura do linho.
É um livro para agricultores, muito embora pareça que usando demasiadamente a linguagem técnica e científica se torne aborrecido na sua leitura e compreensão. Preferimos assim a usar quaisquer outros processos, que procurando demasiadamente a beleza da forma e simplicidade de ideias, acabam não raro, por deturpar ou mistificar a realidade."

Martins, Flávio. 1944. O Linho para Fibra - Sua Cultura. Senhora da Hora: Edição da Empresa Fabril do Norte.

 

Haverão livros mais extensos sobre o assunto, mas considero estes escritos pelo Eng.Flávio Martins, nos anos 40, uma preciosidade porque tinham uma missão muito clara: assegurar que os agricultores que cultivavam o linho usado pela EFANOR possuíam toda a informação necessária para que a produção fosse de qualidade. Para que isso acontecesse, e como nos diz na introdução que citei acima, a informação tinha de ser precisa, sem simplificações condescendentes. Afinal, havia uma indústria dependente destes pequenos agricultores, e criar de raiz informação como esta era essencial para garantir a qualidade da matéria-prima que chegava às unidades de maceração* para a obtenção de fibra. 
Estes dois livrinhos, mesmo limitando-se à fase do cultivo, são bastante pormenorizados e foram os únicos onde encontrei instruções precisas para todo esta parte do processo, desde a preparação do terreno, passando pela época exacta de sementeira, quantidade de semente a usar, manutenção da cultura e, por fim, a colheita com vista à entrega do material às unidades industriais da EFANOR. Mais importante do que dar apenas instruções, o Eng. Flávio Martins explica também os porquês técnicos por trás destes conselhos, desmistificando-os muito.
Mesmo o foco original tendo sido o cultivo com vista ao posterior processamento industrial, a informação contida continua muito relevante actualmente, para quem quer cultivar linho para fibra, em pequena ou média escala.

A produção destes livros aconteceu porque a Empresa Fabril do Norte, a partir dos anos 40 tentou integrar a produção de linho com a sua transformação. Não tendo cultivo próprio, garantia a produção do linho através de contratos com agricultores, que entregavam a planta em palha à empresa, que depois tratava da maceração do linho e do processamento da fibra aí em diante. Ao contrário do que se faz num processo mais artesanal, aqui o linho era colocado a secar em maços logo a seguir à colheita, e só depois era macerado nos tanques das unidades industriais.

Só a jeito de nota, a EFANOR foi a última unidade industrial a processar linho cultivado em Portugal, até 1979. 
No final dos anos 70, o Estado subsidiava então a cultura do linho nacional com 10.000$/ha, mas a então CEE subsidiava a mesma cultura nos seus países membros com 17.000$/ha. Com apoios mais baixos, e custos de produção mais elevados (por aqui, a cultura era feita em minifúndio e não havia mecanização dos processos), deixou de ser possível competir: em 1979, foram cultivados os últimos 14ha e foi encerrada a última unidade de maceração, a de Soure.
A EFANOR continuou ainda a fiar linho, mas a partir de ramas importadas.

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* A maceração é o processo através do qual as fibras do linho são separadas do caule, para poderem ser extraídas, sendo geralmente, mas não sempre, efectuada através de submersão na água, que em ambiente industrial é realizada em tanques com condições controladas.


Flax growing advices from Eng. Flávio Martins


There are books that are more extense on the flax subject, but I consider these written in the 1940’s by Eng. Flávio Martins something special because they had a clear mission: to ensure that the farmers that were growing flax for EFANOR* had all the necessary information to produce good quality crops. For this to happen, the information had to be precise, without any condescendent simplifications. After all, there was an industry depending on these small farmers, and creating information like this was key to make sure the flax arriving at EFANOR’s industrial units was good enough.
These two little books, even if covering only the stages comprising the growing of the flax plant, are very detailed and were the only ones where I found precise instructions for this part of the process. It covers the preparation of the field, sowing season, amount of seed to be used, crop maintenance and at last, the harvest to deliver the material to EFANOR’s industrial units. More important than just instructing, Eng.Flávio Martins also explains the technical reasons behind his advices, demystifying the processes.
Even if the original purpose was the flax growing for industrial processing, the information is still very relevant nowadays for someone who is looking to grow flax in a smaller scale.

These books came to be because the Empresa Fabril do Norte (EFANOR), in the 1940’s, tried to integrate flax production with its industrial processing. Since the company didn’t grow its own fiber, it established contracts with farmers that supplied them, and the company would then handle the retting and fiber processing from then on. 

As a final note, EFANOR was the last industrial unit in Portugal to process locally grown flax, up until 1979.
By the end of the seventies, the government subsidized the flax crops with 10.000$/ha, but the EEC subsidized the same culture for their member countries with 17.000$/ha (Portugal wasn't a member yet). With lower subsidies and higher production costs (in our country, the land areas are small and the agricultural processes were not mechanized), it wasn’t possible to compete: in 1979 the last 14ha were grown and the remaining retting unit was shut down.
EFANOR kept spinning linen in their factory for a while longer, but using imported raw matter

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*EFANOR, Empresa Fabril do Norte, was a large textile spinning mill based in the north of Portugal founded in the beginning of the 20th century;

Cá estão eles!

Quatro dias depois da sementeira, os primeiros rebentos do linho galego começaram a espreitar.

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[27.04.2015 / Este post refere-se à investigação e actividades desenvolvidas no âmbito do programa Saber Fazer em Serralves ]


Here they are!

Four days after the sowing, the little galego flax sprouts started peeking out.

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[27.04.2015 / This post refers to the investigation and activities developed during the Saber Fazer em Serralves program]

O Linho - Sementeira
Talhão semeado em linha

Talhão semeado em linha

 Talhão semeado a lanço

 Talhão semeado a lanço

A investigação que andei a fazer até agora fez-me perceber o quão complexa é esta plantinha e como a qualidade do linho que vamos ter depende quase exclusivamente do que for feito precisamente na altura da sementeira, e bom, também de uma série de factores meteorológicos que não podemos controlar.

A época e a densidade da sementeira são os dois factores cruciais.
A questão da densidade vou deixar para mais tarde, porque é mais fácil explicar com imagens das plantas já crescidas.

Quanto à época de sementeira, na região onde nos encontramos (litoral norte), esta pode começar a partir de meados de Março. No interior será porventura um pouco mais tarde.
Importante é esperar até que os frios intensos e as geadas já tenham terminado - se o tempo estiver demasiado frio, a planta não desenvolve.
No entanto, se o tempo estiver demasiado quente, acelera o ciclo vegetativo do linho e este tem um crescimento demasiado rápido, formando plantas mais baixas e ramificadas - algo que também não queremos, já que a ramificação quebra as fibras, e assim ficamos com fibras curtas e de menor qualidade. 
O que procuramos idealmente é uma temperatura amena e equilíbrio de água, para que a filaça cresça a um ritmo constante e isso só acontece no início da Primavera. No interior, a época parece-me ser ainda mais curta, já que o frio demora mais tempo a desvanecer e o calor instala-se de forma mais intensa, mais cedo.

Como já mencionei anteriormente, o nosso Linho foi semeado bem mais tarde do que devia, a 23 de Abril, mas foi o que foi possível.
Semeamos Linho Galego proveniente de Ponte de Lima.

Parte dos talhões foram semeados em linha (espaçadas cerca de 10cm) e a outra a lanço.
No linho, o habitual numa sementeira feita à mão é que seja feita a lanço, mas quisemos experimentar das duas formas porque haviam várias questões a perceber. Por um lado, achamos que a sementeira em linha permitia-nos, na fase inicial de crescimento, distinguir mais claramente o que era o linho e o que era infestante, para podermos limpar o terreno. Por outro lado, como o linho é suposto ter uma distribuição relativamente uniforme no campo ( que remete para a questão da densidade da sementeira), faz todo o sentido semear a lanço e, de facto, é assim que se faz tradicionalmente.
Depois de espalhada a semente, a zona deve ser coberta utilizando uma grade de dentes ou, quando é uma área muito pequena como a que nós semeamos, usa-se simplesmente um ancinho
A semente do linho é pequena e deve ficar enterrada a uma profundidade de cerca de 1 cm.
De seguida, é preciso compactar um pouco o solo, para aconchegar a terra à semente e também para criar um efeito "sifão" - a compactação vai bombear a humidade da camada inferior e não é necessário efectuar qualquer rega nesta fase inicial. Mais uma vez, como a área que semeamos é bastante pequena, não chegamos a recorrer a um rolo para compactar - bastou-nos bater bem a terra.

A semente do BPGV tem uma taxa de germinação de 95%. Mas a acrescentar a estes 5% que naturalmente não vão germinar, o Eng.Silva diz-nos que 20% das sementes com capacidade de germinação irão ainda falhar por outros factores: por exemplo, porque acabam por ficar enterradas demasiado fundo, ou porque ficam demasiado à superfície e são comidas por pássaros.

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[23.04.2015 / Este post refere-se à investigação e actividades desenvolvidas no âmbito do programa Saber Fazer em Serralves ]

O Linho - preparação do terreno
   Imagens: Carlota Carqueja - Serralves; /  Photos: Carlota Carqueja - Serralves;

 

Imagens: Carlota Carqueja - Serralves; / Photos: Carlota Carqueja - Serralves;

O nosso Linho foi semeado mais tarde do que devia, a 23 de Abril. O plano era fazê-lo duas semanas antes, no final de Março/início de Abril, mas problemas relacionados com o equipamento que era necessário para mobilizar o solo, obrigaram não só a que o momento fosse sucessivamente adiado, mas também a mudar de localização para o cultivo, e esta data foi o melhor que conseguimos fazer. 
Idealmente, a própria preparação do solo seria feita algum tempo antes, mas o início do trabalho sobre o linho começou muito em cima daquilo que é a época de sementeira aqui no Norte Litoral, e não houve tempo suficiente para estrumar ou adubar o solo com a devida antecedência. 

Assim, no dia 20 de Abril, preparou-se o terreno para semearmos o linho.
Primeiro passou-se a fresa para destruir as infestantes, que estavam muito altas, e esmiuçar o solo.
De seguida passou a charrua de aiveca para revirar o solo e enterrar os resíduos de infestantes deixados à superfície. E por último, foi passada a grade de dentes para alisar o solo.
As infestantes que delimitavam o terreno foram removidas com a moto-roçadoura.

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[20.04.2015 / Este post refere-se à investigação e actividades desenvolvidas no âmbito do programa Saber Fazer em Serralves ]


Flax  - Preparing the soil

Our flax was sowed a little bit later than it should have, by the 23rd of April. The plan was to do it two weeks earlier, at the end of March/beggining of April, but problems related with the equipment necessary to prepare the soil made us postpone it several times, and also change the location, and this date was the best we could do.
In perfect conditions, the soil preparation also should have been done a lot earlier, but my work on flax started a little bit on top of what is the right sowing season here in the north of Portugal, and there was not time enough to fertilize in advance.

So, in the 20th of April, the grounds for the flax crop was prepared.
First, we used the milling cutter to destroy the weeds, that had grown tall, and break the soil.
Next, the plow was used to turn the soil and bury the weed traces that were on the surface. And last, we used the harrow to even out the ground.
The weeds around the grounds were removed using an electric hedge trimmer.

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[29.04.2015 / This post refers to the investigation and activities developed during the Saber Fazer em Serralves program]

O Engenheiro do Linho

Quando fui buscar as sementes de Linho Galego ao BPGV, e expliquei à Eng. Ana Maria Barata o que pretendíamos fazer e explorar com esta ideia de produzir e processar fibras têxteis sem Serralves, ela mencionou-me que tinha tido um colega no Banco que há alguns anos atrás tinha trabalhado num projecto relacionado com Linho, e que tinha andado a desenvolver equipamento que talvez achássemos interessante.
Esse colega era o Engenheiro António Silva e o projecto, que andou a desenvolver em meados dos anos 90, tinha como objectivo optimizar o processamento de Linho para fibra têxtil, numa escala de produção pequena. 
Já naquela altura o processamento industrial tinha cessado no nosso país havia muito tempo, por isso o panorama era mais ou menos semelhante ao que é hoje: grupos folclóricos e entidades semelhantes que cultivam o linho para fins recreativos e pouco mais que alguns resistentes que o produzem com qualidade, mas de forma completamente artesanal e que é complicada de rentabilizar.
O objectivo era encurtar as fases mais "dolorosas" do processamento do Linho: as de espadelar e assedar, principalmente, que são demoradas e custosas no que diz respeito a mão-de-obra, mas também a parte da fiação. Uma das máquinas produzidas para esse efeito foi uma espadeladora mecânica. Baseada inteiramente num modelo irlandês e produzida pelo CENFIM apenas pelo custo dos materiais (ofereceram a mão-de-obra), para as associações de artesanato que na altura quiseram adquirir uma. Também se produziu aquilo a que o engenheiro chama "bancas de fiar" eléctricas.
Já estamos noutro século e, actualmente, encontrar e comprar equipamento de escala intermédia para processamento têxtil, fora de Portugal, já não é tão difícil. Mesmo assim, salvo raras excepções, o panorama português é bastante artesanal e acima de tudo, rústico.
Quero dizer com isto que, mesmo actualmente, não é comum encontrar equipamento como o que o Eng.Silva conseguiu produzir, por isso, ter a iniciativa de o construir de raiz nos anos 90,  é algo excepcional.
Na altura, o equipamento não se disseminou, mas achei interessante como algumas pessoas envolvidas no projecto adquiriram, e continuam a usar ainda hoje, essa maquinaria. Sim, há gente com uma espadeladora mecânica destas em casa e também com rodas de fiar eléctricas fabricadas à medida, localmente, há 20 anos atrás.
O facto da espadeladora ser uma réplica de um modelo irlandês, fez com que as suas dimensões estivessem pensadas para variedades de linho estrangeiras, que são mais altas. Usar uma máquina destas implicava que não estivéssemos a usar uma variedade regional que cresce apenas uns 40cm de altura, como o Linho Galego. Optimizar a produção têxtil, mesmo que numa escala mais pequena, pelas conclusões dos diversos estudos que o Eng.Silva fez, também implicava mudar o cultivo para uma variedade mais rentável.

Uma das coisas importantes acerca de uma pessoa como o Eng.Silva é que o conhecimento que ele possui não é apenas teórico nem apenas empírico. Quando trabalhou com o linho, também realizou cultivos, e por trás disto tudo há uma formação académica e um interesse pessoal que lhe deram um conhecimento excepcional sobre a matéria.
Saí deste encontro com livros do Flávio Martins sobre a cultura do linho, com cópias e um documento original dos estudos que o Eng.Silva fez ao longo dos anos (preciosos!) e respostas a muitas dúvidas técnicas que antecederam a sementeira e que precisava de ver esclarecidas. Tive ainda oportunidade de folhear o álbum fotográfico de registo do projecto de desenvolvimento da maquinaria que mencionei anteriormente.
Típico de alguém que tem mais que um interesse profissional pela matéria é encontrar pela sua casa resquícios do interesse pelo Linho. O engenheiro ainda tinha guardadas duas rodas de fiar eléctricas, daquelas produzidas a seu pedido, uma roda de fiar Louet dentro da caixa original (mandada vir da Holanda nos anos 90 através de um amigo camionista) e um exemplar da tal espadeladora mecânica "de tipo irlandês" encostada, mas funcional, numa das arrecadações.
Tudo relíquias!

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[01.04.2015 / Este post refere-se à investigação e actividades desenvolvidas no âmbito do programa Saber Fazer em Serralves ]


The Flax Engineer


When I went to the BPGV to pick up the Galego Flax seeds, and explained Eng. Ana Maria Barata what we intended to do and explore through this idea of growing and processing our own fibre in Serralves, she told me about this colleague of hers that worked at the seed bank years ago: at some point, he had worked in a project related to flax and had developed some equipment that we might find interesting.
That colleague of hers was Eng. António Silva and that project, that he developed around 1993, aimed at optimizing flax processing for fiber purposes, in a small scale production. At the time, industrial production had ceased many years before in our country, so the picture was more or less the same as it is now: folkloric groups and such growing flax for recreational purposes and no more than a few people that process it with quality, but that have a rough time making a profit from their work.
So, the goal was to optimize the most “painful” parts of the process: mostly scutching and combing, which are very time and labour demanding, but also the spinning part.
One of the machines created was a mechanical scutcher entirely based on an irish model. This was manufactured by CENFIM for the cost of the materials alone (they offered the labour) for a few Craft Associations that showed interest at the time. They also manufactured what the engineer refers to as electric “spinning benches”.
We’re in a different century now, and it is a lot easier to find and buy small and middle scale fibre processing machinery, if you look outside Portugal. But even now, except for a few rare cases, the picture in Portugal is mainly artisanal and, above all, very rustic.
It’s not common to find equipment like the one Eng.Silva developed, and he did it in the 90’s, so I find it exceptional.
The equipment didn’t spread out at the time, but some of the people involved in the project acquired it, and still use it in the present day. Yes, this means that there are people that have these machines in their home, and also electric spinning machines custom made locally, twenty years ago.
The fact that the scutcher was made based in an irish model, means that its size is planned for foreign flax varieties, that are taller and more profitable. Using this machine meant not using it with a local flax variety that doesn’t grow more that 40cm, like the Galego Linen. The studies carried by Eng.Silva concluded that optimizing small scale fiber production meant not only the introduction of better equipment, but also of a more profitable flax variety.

One of the importante things about Eng.Silva is that his knowledge in not purely academic or purely experience based. When he worked on flax, growing it was part of his job, but his academic background and personal interest for the subject, allowed him to acquire quite some knowledge about the subject.
I left this meeting with books written by Flávio Martins about growing flax for fiber purposes, copies and originals of the studies Eng.Silva carried on and answers to so many technical doubts that I had before sowing the flax. I also had the opportunity to browse the flax project’s photo album, that I talked about above.
Very typical of a person that has more than a professional interest on the matter is to find traces of his interest for linen around his house. Eng.Silva had kept two different models of the electric spinning wheels he had made, a Louet spinning wheel still in the box (brought from Holland by a truck driver in the 90’s) and one of those big mechanical “irish type” scutchers in one of his storages.
All precious things!

[01.04.2015 / This post refers to the investigation and activities developed during the Saber Fazer em Serralves program]

Um campo de Linho em Serralves

Ainda nem aqui falei da sementeira do Linho, que fizemos em Abril passado, mas por esta altura o nosso cultivo já está bem crescido, já entrou em floração e as baganhas estão a maturar. Hei-de falar de tudo, mas precisei de algum tempo para organizar informação, tomar conta de lagartas e planear mais algumas coisas das quais não falei aqui, e o nosso Linho foi crescendo naturalmente entretanto.
Para quem quiser dar uma olhada na pequena plantação, os talhões estão localizados na zona da Quinta, mesmo no final dos terrenos de Serralves, atrás do Lagar. Aqui em baixo há um mapa para se situarem e encontrarem o local. Quem entrar para visitar o Jardim e a Quinta consegue aceder livremente a esta zona.

Mais dia menos dia a primeira baganha vai abrir, e vamos ter de fazer a colheita. Já não deve faltar muito, com o tempo quente que temos tido, por isso esta é uma boa altura para dar uma olhada no Linho, que está ainda com as características flores de cor lilás.

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[Este post refere-se à investigação e actividades desenvolvidas no âmbito do programa Saber Fazer em Serralves ]


The Flax field in Serralves

I haven't even talked about sowing the flax, that we did last April, but by now the flax has flowered and the seed capsules are maturing. I'll get around to talk about it, but I needed some time to organize information, take care of silkworms and plan a few more things I haven't talked about yet, and all along the flax was growing.
If you want to talk a look at our flax field, it is located in the Farm area, right behind the Barn. I posted a small map to make it easier to find (above). If you enter Serralves to visit the Gardens and the Farm, you'll be able to walk into the spot I marked.

In a few more days, the first seed capsule will open, and we'll have to do the harvest. And with the warm weather we have been experiencing, it shouldn't be long, so this is a good time to visit the flax field, that still has those beautiful characteristic purple flowers.

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[This post refers to the investigation and activities developed during the Saber Fazer em Serralves program]

O pano que estas sementes dão

Já conheço a Maria das Dores há cerca de dois anos. Impossível de esquecer a altura em que a conheci, porque quase fui à falência por lhe comprar metros e metros do tecido que ela produz, integralmente por conta própria, a partir daquelas sementes de linho galego. Até hoje tenho-o bem guardado e só gastei um quadradinho muito pequeno para uma ocasião muito especial.
Eu conheço ainda algumas pessoas que produzem linho artesanal, mas uma coisa é produzir um linho grosseiro qualquer, mesmo que feito à mão, e outra coisa é a maravilha que a Maria das Dores cultiva e tece.

O estilo do trabalho da Maria das Dores recai no âmbito do tradicional, mas a abordagem dela tem pouco de repetição inconsciente da tradição. Falamos durante horas, e ela nunca se cansa de frisar que a ela só lhe interessa fazer "o melhor trabalho" e produzir "o melhor pano". Não ouço isto tantas vezes como gostaria.
Não é o mais barato, nem o mais fácil ou o mais rápido. É o melhor, porque ela sabe que é a única forma de se diferenciar quando chega a altura de vender o que produz, e é assim que consegue sustentar uma casa com um trabalho que muitos dizem que não tem futuro: fazendo sempre melhor.

A Maria das Dores é muito fiel ao Linho Galego. Já experimentou outras variedades estrangeiras, que crescem mais em altura e são mais rentáveis na quantidade de fibra que produzem, mas assegura que a fibra produzida é mais grossa e que dela não consegue fiar um fio para tecer panos tão leves e fluidos como gosta. Pela mesma razão, escolhe conscientemente processar o linho de forma artesanal. Não porque não tenha outra forma de o fazer, mas porque tendo tido acesso a maquinaria semi-industrial, acabou por não a usar porque achou que o trabalho que produzia não era igualmente bom.

Pelo que fui aprendendo até hoje sobre estas variedades de linho, penso que uma das razões por trás disto é o facto do Galego produzir uma qualidade de fibra que não é apenas mais curta, mas também mais fina, o que a torna mais frágil, exigindo mais cuidado no seu processamento, quando dele se quer criar um trabalho de alta qualidade.


The cloth from those seeds
 

I've known Maria das Dores for about two years. I couldn't forget the time I met her because I almost went bankrupt for buying yards and yards of the fabric she manufactures completely on her own, right from those seeds. I've been saving that fabric ever since and have only used a small square for a very special occasion.
I know more people that manufacture artisanal linen, but it is one thing to make a basic rustic linen, even if completely handmade, and another one is this wonderful thing that Maria das Dores grows and weaves.

Her style recalls much of the traditional work from her region, but her approach to work has nothing to do with an unconscious repetition of tradition. We've talked for hours and she keeps repeating how her goal is to produce the "best work" and the "best cloth". I don't hear this as often as I'd like.
It's not the cheapest, the easiest or the fastest. It's the best because she knows it is the only way of differentiating her work when it is time to sell it, and that's how she manages to support her household with a type of work that many say that doesn't have a future: always doing the best she can.

Maria das Dores is faithful to the Galego
Flax. She has tried other foreign varieties, that grow taller and are more profitable, but she assures me that those varieties grow a thicker fiber, although longer, and that she can't spin a yarn thin and light enough to weave her cloth as fluid as she wants. Another thing is that she chose to process the fiber, from flax to linen, in a completely artisanal way, for the same reason. She has had the opportunity to speed up the process using semi-industrial machinery, but didn't use it because she felt her work wouldn't be as good.

From what I have learnt so far from the different varieties, I think one of the reasons behind this choice, of remaining completely artisanal, is the fact that the Galego
Flax grows not only shorter fibers, but also thinner ones, that are inherently more fragile and demand more care during its processing.

Linho Galego: a semente


Por já me terem sido oferecidas sementes de Linho Galego noutra ocasião, ainda que em pequena quantidade, não pensei que conseguir semente em quantidade suficiente para cultivarmos a área planeada fosse tão difícil. Mas até agora, nunca tinha tentado comprar ou arranjar semente desta variedade.

O Linho Galego, como já mencionei aqui, é uma variedade regional de linho com finalidade mista (fibra e linhaça).
Acontece que para uma variedade de sementes ser comercializada legalmente, esta tem que constar no Catálogo Nacional de Variedades (CNV) ou no Catálogo Comum de Variedades (Europeu). E para constar num destes dois catálogos, tem de corresponder aos critérios DHE: Distinção, Homogeneidade e Estabilidade. As variedades regionais, que são importantes precisamente por serem uma fonte de incrível diversidade genética que carrega consiga diversas vantagens, por natureza, falham em responder a estes critérios que procuram homogeneizar as culturas e, assim deixam de poder ser comercializadas e usadas de forma corrente.
Esta página aqui explica tudo isto bastante bem.

No CNV de 2015, consta apenas uma variedade de Linho, mas com vocação para a produção de linhaça e não fibra.  
Dos nossos linhos regionais, nenhum está inscrito num catálogo de variedades, o que quer dizer que, quando queremos cultivar uma variedade local de linho pela primeira vez, não podemos simplesmente comprar semente. A única forma de a obtermos é encontrar alguém que já a cultive anualmente e nos ceda gratuitamente a quantidade de que precisamos. Tarefa que se revela mais complicada quando sabemos que já não há tanta gente assim a cultivar Linho Galego e que os que o fazem não costumam ter excedente de semente em quantidade suficiente para ceder a quem também quer semear uma área considerável.

Para conseguirmos semente, foi preciso fazê-lo através do Banco Português de Germoplasma Vegetal.
O BPGV, o que faz desde 1977, e de forma muito simplificada, é "colher, conservar, avaliar, documentar e valorizar os recursos genéticos garantes do Sistema Nacional para a Conservação dos Recursos Genéticos". É um banco de sementes, e não só, que alberga neste momento 45.000 variedades de 150 espécies, que são não apenas conservadas, mas também multiplicadas no terreno de 8 hectares que é parte das instalações da instituição,  em São Pedro de Merelim (Braga). 
A cedência de sementes por parte do Banco faz-se, naturalmente, sob a condição do receptor se comprometer a conservar e propagar a variedade pedida.

A quantidade que nos foi cedida foi de 500gr, o que é substancialmente menos do que o necessário para semear a área que tinha planeado inicialmente,  mas é o que temos para trabalhar. Esta semente foi colhida originalmente em Ponte de Lima e foi propagada pela última vez nos terrenos do BPGV em 2007, tendo ficado conservada na colecção activa deles desde então.
Para nós, a acrescentar ao objectivo de ter fibra têxtil para trabalhar, acrescenta-se agora o de multiplicar a semente também. 

Para ver: mais imagens do BPGV que eu pude tirar durante a minha visita.


Galego Flax: the seed


I had been offered Galego Flax seed in a previous occasion, although in a small quantity, so I never thought that getting enough seed for the area we had planned to grow would be so difficult.

As I mentioned before, the Galego
Flax we will be growing is a local variety, with a mixed purpose of fiber production and linseed.
The thing is, for any variety to be legally traded, it has to be listed in our National Variety Catalog (Portuguese) or in the Variety Common Catalogue (European). In order for a variety to be listed in one of these catalogues, it has to meet standards of Distinctness, Uniformity and Stability. But most local varieties, that are so important precisely because they are an incredible source of genetic diversity, naturally fail to comply with these standards that seek to homogenize cultures, and in this way, they end up not being able to be sold legally and easily stop being of current use.
The subject is much more complex than this, but I'm just trying to sum it up in a way that it explains the current situation.

In our 2015 National Variety Catalogue, only one type of Flax is listed, but with linseed production purpose, and not fiber.
Of all our local flax varieties, none is listed in these catalogues, and this means that when someone wants to start growing flax for the first time, we can't simply go out and buy the seeds we need. The only way to get it is to get it from someone that is already growing the variety. This is even more difficult when there isn't that many people growing this type of local flax anymore, and when those doing it usually don't have an amount of excess seed big enough to offer someone else who also want to grow a considerable area.

In order to get the seeds, we had to go the Banco Português de Germoplasma Vegetal.
What the BPGV has been doing since 1977 is a work devoted to the conservation and multiplication of about 45000 varieties of 150 different species, assuring that our natural genetic resources aren't lost. They do this not only by preserving seeds in their different storage facilities, but also by propagating them in their farm just outside Braga, in São Pedro de Merelim.
Seeds can be request to the seed bank, but always under the compromise from the receiver of preserving and multiplicating the seed.

The amount we got, of 500gr, is substantially less than what we needed for the area we had planned to sow, but this is what we will have to work with. These seeds were harvested in Ponte de Lima, and were last multiplied in the BPGV own grounds back in 2007, and have been preserved in their active collection since then.
Adding to the goal of obtaining fibre to process, we now need to assure its propagation as well.

To see: more photos of the Banco Português de Germoplasma Vegetal that I was allowed to take during my visit.

Linho. Mas qual linho?

Todos os Linhos cultivados pertencem à espécie Linum usitatissimum L., da qual fazem parte centenas de variedades diferentes.
Algumas destas variedades são comerciais e são estas que são utilizadas correntemente para a produção comercial de Linho para diversos fins, por serem mais produtivas.
Existem também variedades tradicionais que, apesar de não serem cultivadas comercialmente, além de estarem adaptadas às condições locais, encerram em si uma grande riqueza genética e, como tal, é muito importante que sejam mantidas.

Dentro das diferentes variedades que existem, umas estão mais vocacionadas para fibra e outras para a produção de semente, usada para diversos fins.
As variedades mais próprias para fins têxteis costumam ter um caule mais longo e não ramificado, assegurando que as fibras são mais longas. As variedades mais próprias para a produção de semente costumam ter caules mais curtos, muito ramificados. Atenção que uma variedade pode não apresentar uma vocação clara para um fim ou outro, podendo ter uma finalidade mista.

Portanto, depois de se decidir que vamos semear linho, a pergunta a fazer é que linho vamos semear?
Para o cultivo na Quinta de Serralves, iniciado em 2015, tivemos duas coisas em conta: a primeiro é que a finalidade deste linho é a obtenção de fibra têxtil e a segunda é que se faz questão que seja uma variedade tradicional. 

Em Portugal, as duas variedades tradicionais que eram mais cultivadas eram o Linho Galego, que é um linho de Primavera, e o Linho Mourisco, que é um linho de Inverno.
Existem referenciados linhos tradicionais com nomes comuns como CoimbrãoVerdealAbertiço, Serrano e Riga Nacional, entre outros, mas não existem dados científicos que possam confirmar se eram de facto variedades diferentes (com características diferentes), ou se seriam a mesma variedade com nomes comuns diferentes, atribuídos localmente.

Os linhos de Primavera são semeados em Março/Abril, têm um ciclo mais curto que termina geralmente em Junho/Julho e são, geralmente, os que têm o crescimento indicado para a produção de boa fibra. O Linho Galego era conhecido por produzir uma fibra mais fina e delicada.
Os linhos de Inverno são semeados em Outubro/Novembro, têm um ciclo invernal que termina praticamente na mesma altura que os de Primavera, ficando por isso muito mais tempo na terra, e costumam ser as plantas mais indicadas para a produção da linhaça. O Mourisco, apesar de resultar numa planta mais alta, produz fibras mais rústicas que o Galego, e também mais estopa e desperdício de palha.

Se soubermos que estas variedades nacionais raramente crescem mais que 40/50cm de altura, e que as variedades estrangeiras vocacionadas para fibra chegam ao metro de altura, não é difícil de perceber que a desvantagem é que o rendimento da fibra produzida, por área cultivada, será muito menor para as nossas variedades.
No entanto, falando de qualidade e não de rendimento, o Linho Galego, quando bem cultivado e processado, produz fibras muito finas e de grande qualidade que, de acordo com alguns testemunhos de quem processa e trabalha esta fibra anualmente, é mais delicada do que muitas variedades mais rentáveis, prestando-se a produzir fios mais finos. Ou seja, não é a variedade mais rentável, mas o que produz é de boa qualidade.

Moral da história: na quinta de Serralves, semeamos Linho Galego.