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Aprender a tosquiar
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Aqui ficam algumas fotos da Oficina Prática de Tosquia que fizemos pela primeira vez na Quinta de Serralves este ano, logo a seguir à demonstração da manhã.
O Martin trouxe o equipamento profissional dele e nós, desta vez, arranjamos uma bela mesa de desbordagem para explicar todo o processo como deve ser.

Na oficina cobriram-se os tópicos do equipamento, manuseamento do animal e da tosquia propriamente dita. Toda a gente teve a oportunidade de treinar com o acompanhamento próximo do Martin, tosquiando três exemplares da ovelhas Bordaleiras de Entre-Douro-e-Minho que vivem na quinta.
Uma oficina ou formação de tosquia não é algo que seja fácil de encontrar em Portugal nos dias que correm, por isso foi bom receber pessoas que quiseram vir aprender para aplicar o conhecimento nas suas próprias ovelhas.

Durante a manhã, algumas pessoas perguntaram o que vamos fazer com esta lã que tosquiamos e guardamos: para o próximo Outono estão agendadas algumas oficinas de processamento de fibra, incluindo fiação, tinturaria e feltragem, e a matéria-prima vai ser esta, produzida aqui mesmo na Quinta! Faz sentido, não?


Learning to shear

Here are a few photos of the Shearing Workshop that took place last saturday in Serralves, right after the morning demonstration.
Martin brought his professional equipment and we managed to get a nice wool skirting table to explain the whole process.
In the workshop several topics were covered, including equipment, sheep handling and shearing, of course. Everyone had the opportunity to try their hand at it under Martin's guidance, shearing three of the Bordaleira de Entre-Douro-e-Minho sheep that live on the farm.
Shearing training or even a simple workshop is not something easy to come by in Portugal, so it was nice to have people that came to learn about the process so that they could improve how they have been shearing their own small flock of sheep. This was the goal of offering such a specific workshop.

During the morning some people asked what we were doing with all that wool: it will be used in several fiber processing workshops, including spinning, felting and dyeing, that are scheduled for next Fall. Yes, the workshops will be taught using the fiber produced right there on the farm! That's how it is supposed to be, right?

A Tosquia em Serralves - demonstração e oficina prática a 21 de Maio 2016
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A época das tosquias de 2016 já começou e vai voltar a haver uma Tosquia aberta ao público na Quinta de Serralves, no próximo sábado dia 21 de Maio, desta vez com uma novidade: uma oficina prática para principiantes!
O Martin O'Connel regressa ao Porto para tosquiar como deve ser as ovelhas Bordaleira de Entre Douro e Minho que vivem na Quinta e também para explicar o que é uma boa tosquia e porque é que é um passo absolutamente essencial para se obter uma fibra têxtil de qualidade.
O objectivo desta demonstração e oficina prática é muito simples: educar não só sobre a importância de tosquiar o animal para garantir o seu bem-estar, mas também sobre os princípios básicos de uma boa tosquia, que devem combinar o respeito pelo animal com a valorização da fibra da lã.
O objectivo da oficina não é formar tosquiadores profissionais, mas sim dar mais e melhor informação a pessoas que tenham interesse sobre o tema e queiram ganhar mais discernimento sobre esta fase crucial da obtenção da fibra da lã. Por exemplo, entusiastas das fibras têxteis ou donos de pequenos rebanhos, mas não só.
Portanto, é um dia inteiro com duas actividades:
 

DEMONSTRAÇÃO DE TOSQUIA / 21 de MAIO 11H-13H / QUINTA DE SERRALVES

De manhã, às 11h, junto aos estábulos, começa a demonstração da Tosquia. Está aberta ao público em geral, sem limites, mediante a aquisição da entrada no Parque (atenção: não existe nenhum bilhete específico para esta actividade). Basta irem ter à Quinta, junto aos estábulos, à hora marcada e encontram um mini-rebanho e respectivo tosquiador a postos.

Demonstração: Martin O’Connel
Acesso família: 5€/ família (Válido até um máx. de dois adultos participantes acompanhados de crianças até aos 12 anos. Nº livre de crianças até aos 12 anos, sempre que acompanhadas pelos responsáveis).
Acesso individual: mediante aquisição de bilhete Museu ou Parque. 
Ver Programa de Serralves.

 

OFICINA PRÁTICA DE TOSQUIA / 21 de MAIO 15H-18H / QUINTA DE SERRALVES

De tarde, a partir das 15h, começa a oficina prática, esta sim, com um limite de 10 participantes adultos. A oficina será orientada também pelo Martin O'Connel e os participantes terão a oportunidade de perceber de forma prática os princípios de uma boa tosquia mecânica. Se têm interesse nesta fibra têxtil, se têm um rebanho e querem perceber a diferença entre simplesmente remover a lã e fazer uma boa tosquia que valoriza a fibra, então esta é uma oportunidade a não perder.

Orientação: Martin O’Connel
Público-alvo: adultos
Inscrição: 20 €
Inscrição Amigo de Serralves: 10€
Lotação: 10 participantes
As inscrições para a oficina estão abertas a partir do site de Serralves.


21st of May 2016 - Sheep shearing workshop and demonstration at Serralves

The 2016 shearing season is open and we'll be having a demonstration at Serralves farm again, happening next saturday the 21st of May. Adding to the great moment that the demonstration already is, this year we'll be hosting a novice shearing workshop, during the afternoon, featuring Martin O'Connel as our teacher.
Our purpose for the day is very simple: to teach and educate about the importance of shearing the sheep in order to guarantee its well being, but also about the basic principles of a good shearing that should always ally the respect for the animal with the technical know-how that allows us to obtain good quality wool.
The workshop is not meant to teach future professional shearers, but rather give more and better information to anyone who has an interest in this area and would like to become more discerning about the shearing process.
So, we'll have a full day with two activities:

SHEARING DEMONSTRATION / 21st OF MAY 11H-13H / SERRALVES FARM
The demonstration will be in the morning, starting at 11h by the stables. It is open to the general public, requiring only the Park ticket. Just head out to the farm, by the stables, at the set hour, and you'll find a mini-herd and a shearer ready to go.

SHEARING NOVICE WORKSHOP / 21st of MAY 15H-18H / SERRALVES FARM
In the afternoon, at 15h, we'll have the novice workshop. This will be limited to 10 people and Martin will be our teacher for the afternoon. This is a great opportunity to learn more about a crucial step in obtaining good quality wool for textile use and gain some technical knowledge that will help tell apart a good from a bad shearing.
The details are still to be published at Serralves program. When they are, I'll publish the info here. Meanwhile, if you would like to be notified, just send an email my way.

 

More about Shearing at Saber Fazer: 
 - Shearing in Serralves 2015
 - a short video featuring Martin shearing last year
 - Shearing? Why?
 - The Bowen Shearing Technique

A Técnica Bowen de tosquia

Das primeiras vezes que falei com a Suzana sobre o tipo de tosquia que o Marty fazia, ela disse-me logo que a técnica usada por ele era a técnica Bowen e remeteu-me para este vídeo para me introduzir ao assunto. 
Até agora não tive necessidade de explorar a tosquia tecnicamente, nem tinha bem reflectido sobre a importância do assunto para a obtenção de fibra com qualidade, mas quanto mais leio e aprendo, mais me cativa.

Originalmente, esta técnica foi criada por Godfrey e Ivan Bowen nos anos 40, e desde então tem sido aperfeiçoada pela prática e também pela evolução do equipamento utilizado (principalmente nas máquinas utilizadas), mas os princípios básicos originais mantiveram-se. 
O que é importante reter talvez seja que Godfrey e Ivan foram dos primeiros a pensar na sistematização da tosquia, não só com o objectivo de a optimizar a nível de tempo e esforço, mas de garantir que a lã obtida fosse da máxima qualidade (sem cortes duplos e velos removidos inteiros) e que os animais fossem bem tratados durante o processo. 
O processo passou a ser disciplinado, com uma coordenação precisa que minimiza o stress tanto para o tosquiador, como para a ovelha. 
Esta técnica é específica para a tosquia com máquina, e a sua especificidade reside tanto na forma como se manobra o animal, como na sequência e ordem dos golpes longos ( “long blows”) dados com a máquina.

Para que o animal se sinta relaxado, é necessário que o tosquiador também se sinta confortável e numa posição equilibrada, e é por isso que o posicionamento adoptado bem como o equipamento utilizado são importantes.
A ovelha nunca está presa ou atada. É antes manobrada de forma segura pelo tosquiador - na tosquia mecânica, o tosquiador tem obrigatoriamente de manobrar o animal, e não mover-se em redor deste, pois a sua posição relativamente ao braço da máquina mantém-se constante. 
Assim, a ovelha é colocada sentada entre as pernas do tosquiador e é manipulada com os joelhos, os pés e com a mão que está livre.
Sendo a ovelha tão manobrada com os pés, o calçado usado é bastante importante. É normal usarem-se uns mocassins específicos para a tarefa - os mocassins de tosquiador - que são suaves e moles, para serem confortáveis e ajudarem a sentir o corpo do animal. Também têm como função proteger os pés, e impedir que se escorregue, já que as consecutivas tosquias vão espalhando a gordura natural da lã pela plataforma.
Antes de iniciar a tosquia, o Marty montou o estrado de madeira e certificou-se de que estava bem nivelado. Este é um factor importante porque estando a ovelha simplesmente sentada, e com a gordura que se vai libertando, se usarmos uma superfície inclinada, será praticamente impossível manter o animal numa posição estável.
Durante todo o processo, o tosquiador encontra-se de pé e debruçado sobre o animal. Para aliviar este esforço, principalmente em dias normais de trabalho em que centenas de animais são tosquiados consecutivamente, é também usado um apoio suspenso que suporta o tosquiador de forma a que este possa estar dobrado sem esforço.
A máquina da tosquia está ligada a um braço articulado que também tem como função mantê-la suspensa, permitindo que seja manobrada com o mínimo de esforço. 
As lâminas usadas dependem do tipo de ovelha a ser tosquiada - variam de acordo com o tipo de lã e tipo de pele. Por exemplo, as de raça merina têm uma pele mais fina e enrugada, o que torna a tarefa mais difícil e demorada. O próprio esquema da técnica Bowen apresenta variações para as ovelhas de raça merina, para as ovelhas de tipo cruzado e para cordeiros. As ovelhas não são todas iguais.

A técnica Bowen baseia-se numa sequência de movimentos, ou “golpes”, pré-definidos
Uma das coisas que os irmãos Bowen fizeram, foi “limpar” a tosquia de movimentos e técnicas que eram herança da tosquia à tesoura, mas que numa tosquia à máquina não faziam sentido. Tem principalmente a ver com o tipo de golpes: numa tosquia com tesoura estes são curtos e pausados, numa tosquia à máquina são longos, já que a máquina desliza pelo corpo do animal e assim a técnica foi desenvolvida para optimizar estes “golpes longos” (long blows).
De forma muito resumida, e sabendo que já foram introduzidas alterações e que cada tosquiador praticará a técnica com recurso a mais ou menos golpes, a sequência de movimentos é a seguinte:

Começa-se por limpar a zona da barriga, virilhas e cauda. Esta lã é colocada de lado, por ser obviamente de inferior qualidade - as fibras são curtas e nesta zona do corpo estão geralmente muito sujas.
De seguida, passa-se à perna traseira esquerda e fundo das costas, e a seguir é a zona da cabeça. Segue-se o pescoço e o ombro esquerdo. Com esta primeira ordem de movimentos, conseguiu libertar-se o velo no flanco esquerdo, o que permite passar agora para a zona das costas do animal.
Nas costas aplicam-se os “golpes longos”, que fazem um movimento único de baixo para cima, libertando a maior parte do velo de forma rápida e eficaz. Fica para o final o lado direito, começando-se pelo ombro e perna frontal direita, percorrendo a ligação entre a perna frontal e a perna traseira direita, e terminando nesta.
O velo é assim retirado inteiro.

No dia da nossa tosquia em Serralves tive a sorte de ter lá o João que filmou uma das ovelhas a ser tosquiada pelo Martin do início ao fim, e assim consigo mostrar no vídeo a sequência de movimentos da técnica Bowen mais claramente, bem como a forma como o animal é manobrado de forma calma e segura.

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[09.05.2015 / Este post refere-se à investigação e actividades desenvolvidas no âmbito do programa Saber Fazer em Serralves ]


The Bowen Shearing Technique

The first few times I talked with Suzana about the type of shearing done by Martin, she told me he used a specific technique, called the Bowen Technique, and directed me to this video me to introduce the subject.
Up until now I didn’t have the need to explore the shearing process technically, and I hadn’t really though about the subject, but the more I read and learn, the more interesting it becomes.

So, I learnt that originally this technique was developed by Ivan and Godfrey Bowen in the 1940’s, and has been evolving ever since, due to practice, but also to the technical developments (especially those concerning the shearing machines), but the basic principles developed then have been kept.
What’s important to know is that Godfrey and Ivan were the first to think about systematizing the shearing, not only with the goal of minimizing the time end effort spent, but also of guaranteeing that the wool obtained would be of maximum quality (no second cuts and fleeces removed in one piece), and that the animals were treated well during the process.
The shearing process became disciplined, with a precise coordination that minimized stress for both shearer and sheep.
This technique is specific for machine shearing, both in the way the animal is handled, but also because of the sequence of blows applied with the shearing machine.

For the animal to feel relaxed, the shearer needs to be comfortable and correctly positioned, and that’s why the position adopted as well the equipment used are so important.
The sheep is never restrained or tied up, but is rather free and is handled by the shearer constantly. In machine shearing, the shearer has to move the animal, and not move around the animal, because his position relatively to the machine shaft needs to be fixed.

So, the sheep is placed in a sitting position in between the shearer’s legs and it is moved around with the knees, feet and with the free hand.
Being the footwork so important, so is the footwear. There are special mocassins for this - the shearer’s mocassins - that are soft, in order to be comfortable and allow to feel the animal’s body on the feet. They are also supposed to protect the feet and prevent slipping, because the several shearings will spread wool grease on the platform.

Before starting, Martin took some time to assemble the wooden platform and make sure it was perfectly leveled. This is important, because with the sheep sitting down and with all the grease, if you’re using an inclined surface to work, it will be very difficult to keep the animal in place.
During the whole process, the shearer is standing and bending over the animal. To minimize this stress, especially in workdays when hundreds of animals are shorn consecutively, a suspended support is used so that the shearer can be bent without any effort.
The shearing machine is attached to a shaft, which suspends it in a way that it is also easy and light to work with.
The blade used depends on the type of sheep being shorn - they vary accordingly to the type of wool and skin. For example, merino sheep have very thin and wrinkled skin, making them more difficult to shear. The Bowen pattern itself presents variations for merino, crossbreed and lamb shearing. All animals are different.

The Bowen Shearing Pattern is based in a pre-defined sequence of movements, or blows.
One of the things that Bowen brothers did was to eliminate movements that were inherited from blade shearing, and that didn’t make sense in machine shearing. It has a lot to do with the type of “blows”: in blade shearing these are short, but in machine shearing they are long, because the machine can slide continuously on the animal’s body.
In a very short way, and knowing that changes have been introduced and that every shearer has its own style, the Bowen Shearing Pattern goes as follows:

The first area to be sheared is the belly, genital and tail area, and this wool is set aside because, obviously, they are of inferior quality - the fibers are short and are usually very dirty.
Next, the left back leg and end of the back is done. The head and neck areas follow, and the front left leg next. With this first sequence of movements, the fleece on the left side has been released, which allows the shearer to go to he animal’s back.
On the back, the shearer applies the long blows, in a solo movement from bottom to top, releasing most of the fleece quickly. The end will be on the right side of the sheep, starting on the right shoulder and leg, then going in between the right front leg and the back leg, finishing with this one.
That’s how the fleece is removed in one piece and the sheep is handled in a calm manner.

At our shearing in Serralves I was lucky enough to have João there that made a little video of one of the sheep being shorn by Martin from beginning to end. So, you can check the video to understand the Bowen shearing technique a little better.

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[09.05.2015 / This post refers to the investigation and activities developed during the Saber Fazer em Serralves program]

Porquê tosquiar?
Shrek  , a   ovelha  que ficou sem ser tosquiada durante seis anos, tempo em que andou fugida. /   Shrek , a sheep that hid in a cave for six years without being shorn;

Shrek, a ovelha que ficou sem ser tosquiada durante seis anos, tempo em que andou fugida. / Shrek, a sheep that hid in a cave for six years without being shorn;

O único objectivo da tosquia não é obter a lã enquanto matéria-prima, e diria até que para a maior parte das raças que são mantidas pelo Homem, esse nem é o objectivo principal. Aqui em Portugal, em que a maior parte dos ovinos não têm como vocação principal a produção de lã, e em que a lã já não tem (ou ainda não tem?) grande valor económico, os animais são tosquiados na mesma.
Então porque é que se faz a tosquia mesmo quando a lã tem tão pouco valor comercial que se torna mais um encargo do que um benefício para os criadores? 

A maior parte dos ovinos que existem à face da terra são animais domesticados. Isto quer dizer que foram desenvolvidos ao longo de séculos para corresponder a uma ou várias necessidades de produção - lã, carne ou leite. Nestas raças domesticadas, ao contrário do que acontece com as selvagens em que o pêlo cresce muito menos e tem tendência a cair naturalmente no tempo quente, a lã cresce continuamente ao longo de todo o ano. Simplesmente não pára de crescer.
Uma ovelha que não seja tosquiada, e que mantenha a sua lã para o verão, vai sobreaquecer e perder a capacidade de regular a temperatura corporal no tempo quente.  A somar a isso, também há o aumento de peso que vai causar desconforto ao animal e atrapalhar a sua mobilidade.
Em termos de higiene, ao longo de um ano de crescimento, a sujidade natural e uma certa quantidade de matéria vegetal que depende muito das condições em que vive o animal vai acumulando no velo. Por causa disto, a lã fica com área feltradas e bastante sujas, que se traduzem em desconforto. Na zona traseira e genital acumulam-se também urina e fezes, que podem causar queimaduras, provocar doenças e atrair insectos e vermes que se alojam no velo e nas rugas de pele do animal. 

Então, porque é que as ovelhas devem ser necessariamente tosquiadas? Porque é um passo indispensável para garantir o seu bem-estar.


Why shear?

The only purpose of shearing is not to extract wool as a raw matter, and I would even say that for most breeds kept by man, that is not even the main goal. Here in Portugal, where most sheep aren’t bred specifically for wool, and where most of the wool is no longer so valuable as it used to be, the animals are shorn anyway.
So, why are sheep shorn even when the wool has little comercial value and is actually more of an expense to remove than a benefit for the breeder?

Most sheep breeds are domesticated animals. This means that they were developed by man throughout centuries to correspond to one or several production needs - wool, meat or milk. Unlike the wild breeds, whose hair falls out naturally during the warmer weather, the wool on a domesticated sheep grows all year long. It simply does not stop growing.
A sheep that isn’t shorn, and that keeps its wool for summer, will probably overheat and loose the ability of regulating their body temperature during the warmer weather. Adding to that, there’s the increase in weight that will be discomfortable for the animal and cause mobility issues.
Hygiene wise, during a whole year of growth, the natural dirt and a certain amount of vegetable matter, that dependes on the conditions where the animal is kept, will accumulate on the fleece. Because of this, the wool will get felted and get dags, which is also very uncomfortable. The rear end and genital area will also accumulate urine and excrements, that can cause burns and diseases on the animal’s skin, as well attract insects and worms that hide in the fleece and skin’s wrinkles.

So,  why do sheep absolutely need to be shorn? Because it is an essential step to guarantee their welfare.  

A Tosquia na Quinta de Serralves - 2015

No sábado passado o tempo esteve fabuloso, apareceu um público muito interessado e participativo, e depois da tosquia feita pelo Martin, as ovelhas estão mais fresquinhas e nós temos uns belos velos de Bordaleira-de-Entre-Douro-e-Minho para trabalhar. Ou seja, foi uma manhã perfeita.

Antes do evento, pedi ao Marty e à Suzana para fazerem uma boa introdução ao que ia acontecer. Resumir o background do Marty, explicar para que serve e o que implica uma tosquia, falar das ferramentas e da técnica usada. Uma abordagem que mostrasse como se faz uma boa tosquia num ambiente profissional e actual, mesmo que em pequena escala, era o mais importante, e também explicar que sendo a ovelha um animal domesticado, temos obrigações a cumprir para manter o seu bem-estar, e a tosquia é uma delas.

O Marty, que é natural da Nova Zelândia, cresceu numa quinta com milhares de ovelhas e foi aos 18 que foi mandado pelo pai para uma escola de Tosquia - facto que não lhe agradou muito na altura, mas o sentimento agora é outro. Trabalhou e trabalha na indústria lanar tanto na NZ como na Austrália, mas também por toda a Europa, incluindo Inglaterra, Escócia, Suiça, Itália, etc.
Neste momento reside em Portugal com a Suzana, em Marvão, onde continua a trabalhar como tosquiador tanto no nosso país, como fora, em diferentes épocas do ano.
Uma das coisas que torna o Marty interessante para mim, e para a investigação que estamos a fazer, é a sua experiência comparativa. O facto de trabalhar em países com indústrias lanares bem distintas e "culturas da fibra" também ela distintas dá-lhe uma visão interessante do assunto. As diferentes abordagens, os diferentes objectivos, as diferentes expectativas de cada sítio. 
Em Portugal, tem tosquiado principalmente na zona do Alentejo.
Por aqui, diz ele, a grande diferença é que o objectivo dos criadores e tosquiadores em geral é simplesmente aliviar a ovelha da lã, e não a obtenção da fibra têxtil com qualidade, que exige cuidados específicos. Na maior parte dos casos não se faz sequer a desbordagem dos velos logo após a tosquia, e muito menos a separação da lã pela qualidade da fibra (o "wool grading"), o que faz baixar o valor da lã por haver uma mistura de produtos de fraca qualidade com outros de alta qualidade.
Também acha que há uma percepção errada quanto à qualidade da lã que produzimos em Portugal. A nossa lã é muito melhor que aquilo que os portugueses pensam, e por cá há raças bem interessantes para serem exploradas. Outro ponto a melhorar são os cuidados prestados às ovelhas durante todo o ano que antecede a tosquia. Tudo começa aí, a lã é um reflexo do bem-estar do animal.

Este sábado foi a primeira vez que tosquiou ovelhas Bordaleiras-de-Entre-Douro-e-Minho e não deixou de dizer que adorou tanto a sua personalidade, que classificou como "very nice sheep", como a qualidade da lã também.
O maior feedback de quem assistiu foram os elogios à forma delicada, mas segura e eficaz, como o Marty manuseou os animais, e também, acima de tudo, como o processo foi tão calmo e pacífico, o que me pareceu criar muita surpresa entre o público, como se pôde ver pelo silêncio durante a tosquia da primeira ovelha e as palmas quando a Suzana abriu o primeiro velo para toda a gente tocar.

A mim surpreendeu-me pela positiva o tipo de perguntas colocadas pelo público após a tosquia da primeira ovelha. Perguntas pertinentes e muito interessantes, a meu ver, todas relacionadas com os aspectos práticos e económicos da actividade: "como é que se armazena esta lã assim suja?", "Que tipo de lã é a desta raça?", "como é que se lava o velo?", "Quanto é que pesa o velo e quanto lã é que rende depois de lavada?", "Aproveita-se toda a lã do velo?" e outras semelhantes. Perguntas que penso mostrarem que a apresentação do assunto por parte do Marty e da Suzana foi bem interessante, e que tirou muita gente do simples papel de espectador para passarem a querer perceber mais do assunto.

Ainda quero aqui falar da técnica específica de tosquia usada pelo Martin - a técnica Bowen, e também da forma como se faz a desbordagem e o armazenamento correcto dos velos tosquiados, o que farei nos próximos posts.

Tosquiador de Ovelhas
Marty & Suzana
T: 968152967
Marvão, Portugal

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[09.05.2015 / Este post refere-se à investigação e actividades desenvolvidas no âmbito do programa Saber Fazer em Serralves ]


The shearing

 

Last saturday we had fabulous weather, an interested audience showed up, and after the nice shearing done by Martin, the sheep are now much lighter and we have some beautiful fleeces from the Bordaleira-de-Entre-Douro-e-Minho to work with. It was a perfect morning.

Before the event, I asked Marty and Suzana if they could make a good introduction to what was about to happen. Talk about Marty’s background, explain the purpose of the shearing and what it implies, the tools and the technique used. An approach that showed how a good shearing in done in a professional environment, even if small scale, was the most important, and also convey the idea that sheep are domesticated animals, and therefore we have an obligation of assuring their well-being, and shearing is a part of that.

Marty, born in New Zealand, grew up in a farm with thousands of sheep and at the age of 18 was sent by his father to a shearing school - something he didn’t like at the time, but the he has different feelings about that now. He has worked and still works in the wool industry, both in NZ and Australia, but also all over Europe, including England, Scotland, Switzerland, Italy, etc.
At the moment he lives in Portugal with Suzana, in Marvão, where he keeps working as a shearer, both in our country and abroad, in different times of the year.
One of the things that makes Marty so interesting for me and the investigation we’re carrying, is his comparative experience. The fact that he has worked in countries with very different wool industries and “fiber cultures” allows him to have an interesting view on the subject. The different approaches, different goals and different expectations of each place.
In Portugal he has been shearing mainly in Alentejo.
He tells me that around here the main difference is that the goal of the shearers in general is simply to relieve the sheep from its wool, and not obtaining the wool for fiber purposes, which demands specific care. In most cases, the fleeces aren’t skirted and no wool grading is done, and this lowers the wool value, simply because the low quality product is being thrown together with the high quality one.

This saturday was the first time he sheared Bordaleiras-de-Entre-Douro-e-Minho sheep (a local breed from northern Portugal) and his comments about them were that they were “very nice sheep” and that they had good wool.
The biggest feedback from the audience were the compliments to the delicate, yet confident and firm way, as Marty handled the animals and above all, how calm and peaceful the whole process was, which seemed to surprise a lot of people, as I could see from the silence during the first shearing and the applause when Suzana opened the first fleece for everyone to see and touch.

I was pleasantly surprised by the type of questions asked by the audience after the first sheep was sheared. Interesting and important questions, all related with the practical and economical side of the activity: “how do you store the raw fleece?”, “What kind of wool is this?”, “How do you wash the fleece?”, “How much does this fleece weight and how much wool will it give after washing?, “Do you use all the wool from the whole fleece?” and others very similar. I think these questions show that Marty and Suzana’s approach to the subject was interesting, and many people were interested in much more that just watching.

I still want to talk about the shearing technique Marty uses - the Bowen technique - and also about skirting the fleece and how to properly store a raw fleece, but I’ll do that in the next posts.
 

Tosquiador de Ovelhas (Sheep Shearer)
Marty & Suzana
T: 00351 968152967
Marvão, Portugal

[09.05.2015 / This post refers to the investigation and activities developed during the Saber Fazer em Serralves program]

Vem aí a tosquia!
Imagens:  Martin O'Connel

Estamos quase em Maio, e a época da tosquia já está aberta há algum tempo, mas em Serralves, a primeira tosquia às ovelhas Bordaleiras-de-Entre-Douro-e-Minho a ser realizada na própria Quinta vai acontecer no próximo sábado dia 9 de Maio, pelas 11h.

Uma boa tosquia é, não só, um passo incontornável para a obtenção de uma fibra têxtil de qualidade, mas também um momento de demonstração de respeito pelo animal que nos oferece uma valiosa matéria-prima, e que deve ser tratado de forma cuidadosa e conhecedora.
Por isso mesmo, convidei o Marty O'Connel a vir cá ser o tosquiador de serviço. O objectivo não é apenas fazer uma boa tosquia às ovelhas Bordaleiras de Entre Douro e Minho, mas também ter alguém que adora o seu trabalho, adora comunicá-lo e é óptimo a fazê-lo.
A tosquia vai fazer-se na zona da quinta de Serralves junto aos estábulos, e vai estar aberta ao público.
Se gostam de lã ou fibras têxteis em geral, têm curiosidade sobre estes processos e gostariam de ver em primeira mão como se processam quando são bem executados, esta é uma oportunidade única para aprender com um bom profissional.

Aqui ficam os pormenores da actividade e podem ver mais informação no site de Serralves:

Dia e hora: 9 de Maio
Horário: 11h - 12.30h
Local: Parque - Quinta de Serralves (junto aos estábulos)
Orientação: Martin O'Connel
Link para o programa: Programa "Saber Fazer" - a Tosquia


The shearing is coming!
 

We're almost in May and shearing season has been open for a while now, but in Serralves, the first time the Bordaleiras-Entre-Douro-e-Minho sheep will be sheared in the farm will be in the next saturday, the 9th of May, starting at 11h in the morning.

A good shearing is an essencial step to obtain good quality fibre, but it is also a moment of demonstration of respect for the animal that each year offers us a valuable raw matter, and that should be treated in a careful a knowingly manner.
That's why I invited Marty O'Connel to come to Serralves and be our shearer this year. Our goal is not only to have the sheep properly sheared, but also to receive someone that loves their job, loves talking about it and it's great at it.
The shearing will take place in the Serralves' farm, close to the stables, and it is going to be open to the public.
If you're a wool lover or enjoy textile fibers in general, and are curious about seeing these processes first hand, then this is a great opportunity to watch, learn and ask questions to an excellent professional.

Here are the details, and you can check the program at Serralves' website:

Day: 9th of May (saturday)
Time: 11h - 12.30h
Place: Serralves Park / Farm (close to the stables)
Guidance: Martin O'Connel
Link: "Saber Fazer" Program - the Shearing (in english)

A dupla tosquia
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Uma coisa que me tinha vindo a confundir até há pouco tempo era a dupla tosquia anual, como descrevi aqui.
O velo, para ser cortado e usado para lã tem de ter um comprimento mínimo, por isso ainda não tinha percebido como é que se tosquiavam duas vezes ovelhas como as bordaleiras, para obter a tal lã de S.Miguel.
E a verdade é que não se tosquiavam. A dupla tosquia só se fazia nos rebanhos de ovelhas bravas, que são as Churras do Minho  nesta região, e que era a raça mais comum. O velo destas é comprido e, entre Maio e Setembro cresce o suficiente para ser de novo tosquiado, ou “estoquiado” como dizem por aqui. 
A lã tosquiada duas vezes não só era útil porque permitia fazer o trabalho de fiar a teia e a trama em duas ocasiões separadas, como era mais macia por não ter estado tanto tempo exposta aos elementos - era importante obter a lã mais macia porque a ovelha brava tem naturalmente uma lã mais áspera e rústica.
Outra razão para tosquiar as ovelhas bravas no final do Verão era para evitar que o pêlo acumulasse humidade pela altura do Outono e do Inverno, o que o poderia fazer apodrecer ou ganhar doenças. Pêlo curto, pêlo seco.
Actualmente, com as ovelhas meirinhas, que correspondem a várias raças com velo mais macio que as bravas, a tosquia faz-se apenas uma vez por ano em Maio, e quem ainda trabalha a lã guarda-a durante todo o ano para a ir transformando.

 

One thing that had been confusing me was the double shearing per year, as I described here.
The fleece, to be sheared and used for wool need to be at a minimum lenght, so I didn’t understand how they could shear the "meirinha" sheep twice a year.
Well, they weren’t. The double shearing was only made when they had mostly wild sheep, whose fleece grows long enough to be cut once in May and again in by the end of August.
Shearing the sheep twice was not only useful because it allowed the women to spin the weft and the warp for the blankets in two separate occasions, but also because it was softer because it hadn’t been exposed to the elements for so long - obtaining softer wool was importante because the wild sheep have a harsher wool than the domesticated sheep.
Another reason to cut the wool by the end of the summer was to avoid the long fleece to be constantly wet during autumn and winter. This would make the fleece rot or provoke other diseases. Short fleece, dry fleece.
Nowadays, the “meirinha” sheep, that are more domesticated, are sheared only once a year in May and the fleece is kept during the year to be transformed.